Os 12 apóstolos e suas missões: quem foram e o que fizeram
Os doze apóstolos foram os homens que Jesus escolheu, entre muitos seguidores, para fazer duas coisas: andar com ele durante o ministério e depois ser enviados a contar o que viram. É isso que a palavra "apóstolo" quer dizer em grego (apostolos) — enviado, mensageiro. Pedro, André, Tiago e João aparecem o tempo todo nos evangelhos; de outros, como Bartolomeu e Simão o Zelote, a Bíblia guarda pouco mais que o nome, e o que se conta sobre a vida deles depois vem da tradição da igreja, não da Escritura.
E escolheu doze, qualificando-os como apóstolos, para que convivessem com Ele e os pudesse enviar a proclamar.
Os nomes estão em quatro listas — Mateus 10:2-4, Marcos 3:16-19, Lucas 6:14-16 e Atos 1:13: Simão Pedro, André, Tiago filho de Zebedeu, João, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, Tiago filho de Alfeu, Judas Tadeu, Simão o Zelote e Judas Iscariotes. Depois da traição e da morte de Judas, Matias entrou no lugar dele.
Para que Jesus escolheu doze
Marcos 3:14 resume a missão em duas partes, e a ordem importa: primeiro "estar com ele", depois "ser enviados a pregar". Os apóstolos não foram mandados falar de alguém que conheciam por ouvir dizer. Passaram cerca de três anos vendo Jesus de perto — comendo com ele, ouvindo as parábolas, assistindo aos milagres, dormindo no mesmo barco.
O número não é por acaso. Israel tinha doze tribos, e Jesus liga uma coisa à outra em Mateus 19:28, quando diz que os doze se sentariam em doze tronos. A leitura comum nas igrejas evangélicas é que Jesus estava fundando um novo povo de Deus, e os doze eram o começo desse povo.
Ainda em vida, Jesus os enviou numa primeira missão de teste, só pelas cidades de Israel: pregar que o Reino estava perto, curar doentes e expulsar demônios, sem levar dinheiro nem bagagem (Mateus 10:5-10). Marcos conta que foram de dois em dois (Marcos 6:7).
A missão definitiva veio depois da ressurreição. Em Mateus 28:19-20 Jesus manda fazer discípulos de todas as nações, batizar e ensinar. E, pouco antes de subir ao céu, dá o mapa do caminho:
Contudo, recebereis poder quando o Espírito Santo descer sobre vós, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra!"(Atos 1:8)
Jerusalém, Judeia, Samaria, confins da terra. Olha como Atos segue exatamente essa sequência: os apóstolos esperam em Jerusalém, reunidos em oração no andar de cima de uma casa (Atos 1:13); no Pentecostes, Pedro prega e cerca de três mil pessoas creem (Atos 2); dali o evangelho vai para Samaria, para a casa de um oficial romano e para o mundo grego. A principal coisa que os apóstolos fizeram foi isto: ser testemunhas de que Jesus morreu e ressuscitou, e organizar as primeiras comunidades em torno dessa notícia.
Quem foram os doze, um por um
Vale saber de antemão: a Bíblia não distribui a atenção por igual. Quatro ou cinco apóstolos aparecem em cena várias vezes; outros são só um nome na lista. O que vem abaixo separa o que a Escritura registra do que a tradição cristã acrescentou depois — e a tradição, por mais antiga, não tem o mesmo peso.
Simão Pedro
Pescador, irmão de André, de Betsaida mas morando em Cafarnaum. Jesus lhe deu o apelido Pedro, "pedra" (João 1:42). Foi quem confessou "Tu és o Cristo" (Mateus 16:16) e quem negou Jesus três vezes na noite da prisão. Depois da ressurreição, Jesus o restaurou na beira do lago (João 21:15-19).
Em Atos, Pedro é o líder visível dos primeiros anos: prega no Pentecostes, cura um paralítico no templo, batiza o primeiro gentio, o centurião Cornélio (Atos 10), e fala no concílio de Jerusalém. Duas cartas do Novo Testamento levam o nome dele.
A tradição, registrada por Clemente de Roma e Eusébio, diz que morreu crucificado em Roma na perseguição de Nero, por volta do ano 64. João 21:18-19 parece antecipar uma morte violenta, mas o Novo Testamento não a narra.
André
Irmão de Pedro. Antes de seguir Jesus era discípulo de João Batista, e foi ele quem levou Pedro até Jesus (João 1:40-42). Aparece pouco, mas sempre trazendo alguém: o menino com os pães e peixes (João 6:8-9) e, com Filipe, os gregos que queriam ver Jesus.
Depois de Atos 1 a Bíblia não fala mais dele. A tradição o coloca pregando ao norte do Mar Negro e na Grécia, e diz que morreu em Patras, numa cruz em forma de X — daí a "cruz de Santo André".
Tiago, filho de Zebedeu
Irmão de João, também pescador. Jesus chamou os dois de "Boanerges", filhos do trovão (Marcos 3:17), e eles honraram o apelido: pediram para mandar fogo do céu sobre uma aldeia e brigaram pelos melhores lugares no Reino. Tiago estava com Pedro e João na transfiguração e no Getsêmani.
É o único dos doze cuja morte a Bíblia narra, fora Judas:
e matou a Tiago, irmão de João, por execução ao fio da espada.(Atos 12:2)
Foi executado pelo rei Herodes Agripa I por volta do ano 44 — o primeiro apóstolo a morrer pela fé. A ligação dele com a Espanha, que gerou Santiago de Compostela, é tradição bem posterior, dos séculos VII a IX.
João
O outro filho de Zebedeu. A tradição antiga, desde Irineu no século II, identifica João com o "discípulo a quem Jesus amava" do quarto evangelho — o que estava ao pé da cruz e recebeu o cuidado da mãe de Jesus (João 19:26-27). Em Atos, anda em dupla com Pedro no templo e em Samaria.
Cinco livros do Novo Testamento são tradicionalmente atribuídos a ele: o Evangelho, três cartas e o Apocalipse, que ele diz ter recebido exilado na ilha de Patmos (Apocalipse 1:9). A tradição diz que passou os últimos anos em Éfeso e morreu de velhice — seria o único dos doze a não ser martirizado.
Filipe
De Betsaida, a mesma cidade de Pedro e André (João 1:44). Assim que foi chamado, procurou Natanael. É dele a frase "Senhor, mostra-nos o Pai", que arrancou de Jesus uma das respostas mais fortes do evangelho: "quem me vê a mim vê o Pai" (João 14:8-9).
Isso aqui é importante: o Filipe de Atos 8, que prega em Samaria e batiza o etíope, é outra pessoa — Filipe o evangelista, um dos sete escolhidos em Atos 6. A tradição liga o apóstolo Filipe à região da Frígia, na atual Turquia, com morte em Hierápolis.
Bartolomeu
Nas listas dos doze aparece só o nome, e nada mais. "Bartolomeu" é um sobrenome, "filho de Talmai", e por isso desde cedo a igreja o identificou com Natanael, o amigo que Filipe levou a Jesus em João 1:45-51 — Natanael aparece em João nos lugares onde Bartolomeu aparece nos outros evangelhos, e nunca os dois juntos. É uma identificação provável, não certa.
A tradição o manda para a Armênia e para a Índia, e descreve uma morte brutal, esfolado vivo.
Tomé
Chamado Dídimo, "gêmeo". Ficou famoso pela dúvida: não acreditou na ressurreição até tocar as feridas, e então disse "Senhor meu e Deus meu" (João 20:24-28) — a confissão mais direta da divindade de Jesus na boca de um apóstolo. Antes disso, foi ele quem disse "vamos morrer com ele" quando Jesus decidiu voltar à Judeia (João 11:16).
A tradição mais consistente o coloca na Índia; os cristãos do estado de Kerala se chamam até hoje "cristãos de São Tomé" e dizem que ele morreu a lança perto da atual Chennai.
Mateus
Cobrador de impostos em Cafarnaum, uma profissão odiada pelos judeus por servir a Roma. Jesus o chamou na própria mesa de trabalho e ele deixou tudo na hora (Mateus 9:9). Marcos e Lucas o chamam Levi. O primeiro evangelho é tradicionalmente atribuído a ele.
Depois de Atos 1 a Bíblia silencia. As tradições sobre onde pregou se contradizem — Etiópia, Pérsia, Macedônia —, o que mostra que ninguém sabia ao certo.
Tiago, filho de Alfeu
Só o nome nas quatro listas. Nada do que ele disse ou fez foi registrado. Alguns o identificam com "Tiago, o menor", de Marcos 15:40, mas é suposição. E não confunda com Tiago, irmão de Jesus, que liderou a igreja de Jerusalém e escreveu a carta de Tiago — esse não era um dos doze.
Judas Tadeu
Mateus e Marcos o chamam Tadeu; Lucas e Atos, "Judas, de Tiago" — filho ou irmão, dependendo da tradução. Fala uma vez só, na última ceia, perguntando por que Jesus se revelaria aos discípulos e não ao mundo (João 14:22). A carta de Judas é geralmente atribuída ao irmão de Jesus, não a ele. A tradição o envia à Síria e à Pérsia, muitas vezes ao lado de Simão o Zelote.
Simão, o Zelote
Lucas o chama Zelote; Mateus e Marcos, "Cananita", que não tem a ver com Canaã — vem de uma palavra aramaica para "zeloso". Pode indicar fervor religioso ou ligação com o movimento nacionalista dos zelotes, que queria expulsar Roma à força. Se for o segundo caso, Jesus pôs à mesma mesa um ex-colaborador de Roma (Mateus) e um ex-revolucionário contra Roma. Fora isso, a Bíblia não registra nada dele.
Judas Iscariotes
Cuidava do dinheiro do grupo e, segundo João, roubava dele (João 12:6). Vendeu Jesus por trinta moedas de prata, apontou-o aos soldados com um beijo e, tomado de remorso, devolveu o dinheiro e se enforcou (Mateus 27:3-5). "Iscariotes" provavelmente indica a cidade de origem, Queriote.
Discípulo e apóstolo não são a mesma coisa
Todo apóstolo era discípulo, mas nem todo discípulo era apóstolo. Lucas deixa a distinção explícita:
Logo ao nascer do dia, convocou seus discípulos e escolheu dentre eles, doze, a quem também designou como apóstolos:(Lucas 6:13)
"Discípulo" é quem aprende, quem segue um mestre — e Jesus tinha muitos, homens e mulheres. Em Lucas 10 ele envia setenta deles em missão, e esses não são chamados apóstolos. "Apóstolo", no sentido estrito, é um dos doze: escolhido por nome, testemunha ocular de tudo, enviado com autoridade para falar em nome de Jesus. Quando o Novo Testamento diz que a igreja foi "edificada sobre o fundamento dos apóstolos" (Efésios 2:20), é esse grupo que está em vista.
Judas saiu e Matias entrou
Com a morte de Judas o grupo ficou em onze, e antes do Pentecostes Pedro propõe completar o número. O critério que ele dá é a melhor definição do que era um apóstolo:
Sendo assim, é preciso que escolhamos um dos homens que estiveram conosco durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, desde o batismo de João até o dia em que Jesus foi elevado dentre nós ao céu. É fundamental que um deles seja conosco testemunha de sua ressurreição.(Atos 1:21,22)
Ter andado com Jesus desde o início e poder testemunhar a ressurreição. Dois homens preenchiam o requisito, José Barsabás e Matias, e a escolha foi por sorte, depois de oração (Atos 1:23-26) — o último caso de sortes na Bíblia; depois do Pentecostes a igreja decide de outro modo. Sobre Matias, fora isso, a Escritura não diz mais nada.
Por que Paulo não está na lista
Paulo se chama apóstolo em quase todas as cartas (Romanos 1:1), mas nunca foi um dos doze, e ele mesmo sabia disso. Não andou com Jesus; era um perseguidor da igreja quando o Cristo ressuscitado lhe apareceu no caminho de Damasco. Ele se coloca no fim da fila das testemunhas:
E, depois de todos, apareceu igualmente a mim, como a um que nasceu fora do tempo.(1 Coríntios 15:8)
A leitura evangélica histórica é que Paulo foi apóstolo no sentido pleno — chamado diretamente por Jesus, não por homens (Gálatas 1:1) —, mas por um caminho fora do padrão, e com uma missão própria: levar o evangelho aos gentios. Os doze eram o fundamento ligado a Israel; Paulo, o apóstolo das nações. O Novo Testamento ainda chama Barnabé de apóstolo (Atos 14:14), num sentido mais amplo de "enviado".
Como os apóstolos morreram
Aqui é preciso honestidade. A Bíblia registra só duas mortes: Judas, que se enforcou, e Tiago filho de Zebedeu, morto por Herodes. Sobre Pedro há a previsão de João 21, e Jesus avisa a todos que seriam perseguidos e mortos (João 16:2). Nada além disso.
Tudo o mais — Pedro crucificado em Roma, André em Patras, Tomé na Índia, Bartolomeu esfolado, João morrendo velho em Éfeso — vem de escritores dos séculos II a IV, como Eusébio de Cesareia, e de livros apócrifos chamados "Atos" de cada apóstolo. Algumas dessas tradições são antigas e bem espalhadas; outras são lendas tardias. O que elas têm em comum, e isso é digno de nota, é que nenhuma apresenta um apóstolo voltando atrás no que viu.
E é nisso que a história dos doze termina onde começou. Jesus os escolheu "para que estivessem com ele e para os enviar a pregar" — e eles passaram o resto da vida fazendo exatamente a segunda parte, porque tinham feito a primeira. O relato de como isso começou está em Atos 1 e 2, e vale ler os dois capítulos inteiros.
Quantos apóstolos existiram ao todo?
Doze escolhidos por Jesus, mais Matias, que substituiu Judas. Paulo também é chamado apóstolo, por um chamado direto de Cristo, mas nunca entrou no grupo dos doze. Em sentido mais amplo, Atos 14:14 aplica a palavra a Barnabé, e Romanos 16:7 parece aplicá-la a Andrônico e Júnia, como "enviados" das igrejas.
Por que os evangelhos dão nomes diferentes para o mesmo apóstolo?
Era comum um judeu ter dois nomes, ou nome e apelido. Mateus é Levi em Marcos e Lucas; Tadeu em Mateus e Marcos é "Judas, de Tiago" em Lucas; Bartolomeu é provavelmente o Natanael de João; Simão é "Cananita" num evangelho e "Zelote" em outro, duas formas da mesma palavra. As quatro listas trazem as mesmas doze pessoas.
Algum apóstolo era irmão de Jesus?
Não. Tiago e Judas, irmãos de Jesus, se tornaram líderes da igreja e escreveram as cartas que levam seus nomes, mas não eram dos doze — durante o ministério de Jesus, os irmãos dele nem acreditavam nele (João 7:5). Os dois Tiagos e os dois Judas da lista são outras pessoas.
Quem foi o primeiro apóstolo chamado?
Depende do relato. Em João 1:35-42, André e outro discípulo (que a tradição identifica com João) são os primeiros a seguir Jesus, e André leva Pedro em seguida. Em Mateus 4:18-22, Pedro e André são chamados juntos à beira do lago, depois Tiago e João. Os dois relatos combinam se o encontro de João 1 veio antes do chamado definitivo.
Os apóstolos escreveram o Novo Testamento inteiro?
Não. Dos doze, a tradição atribui livros a Mateus, João e Pedro. Paulo escreveu treze cartas. Marcos e Lucas não eram apóstolos, mas companheiros de apóstolos — Lucas, de Paulo; Marcos, de Pedro. Tiago e Judas, autores das cartas com esse nome, eram irmãos de Jesus. O autor de Hebreus não é identificado.
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