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Bíblia: o que é, quem escreveu e sua mensagem

O que é a Bíblia

A Bíblia é um livro feito de livros: 66 textos, escritos por cerca de 40 pessoas ao longo de uns 1.500 anos, que os cristãos leem como a Palavra de Deus. Deus não ditou de cima; ele falou por meio de pastores, reis, pescadores, um médico e um cobrador de impostos — e o resultado é uma só história, que começa com a criação do mundo e termina com a sua renovação.

O nome vem do grego ta biblia, "os livros", no plural. Vale notar isso logo de saída: quem abre a Bíblia esperando um manual de capa a capa se perde, porque está diante de uma biblioteca. Tem lei, tem história, tem poesia, tem carta, tem profecia. O que une tudo não é o estilo, é o assunto — e o assunto, como Jesus mesmo disse, é ele.

A frase que a própria Bíblia usa para se definir está numa carta de Paulo a um pastor jovem chamado Timóteo:

Zab Jigithek ne Hamangkhung-aphuii re-è thog chiih-è kho ne izai shii yua, asi pha ji shii giung, biidiie shii khriig rek, chiih-è giang shii sieng pha nong phi, ji è branthek hanyie è Hamangkhung-aphuii ro blia rek pho shii ley ìdlie ne wie blia zab shii khriig rek chid.(2 Thimothi 3:16,17)

"Inspirada por Deus" traduz uma palavra que Paulo parece ter criado para a ocasião: theopneustos, literalmente "soprada por Deus". Não é que os autores tiveram uma ideia inspirada, no sentido de um poeta inspirado. É que o texto veio do sopro de Deus. Tudo o que vem a seguir — quem escreveu, em que língua, por que a Bíblia católica tem mais livros — gira em torno dessa afirmação.

Como a Bíblia está organizada

A divisão mais básica é em dois blocos: Antigo Testamento (39 livros) e Novo Testamento (27 livros). "Testamento" aqui quer dizer aliança — o acordo que Deus fez com o seu povo. O Antigo conta a aliança com Israel, de Abraão até os profetas; o Novo conta a nova aliança em Jesus, dos Evangelhos até o Apocalipse.

Dentro de cada bloco os livros estão agrupados por tipo, não por data. No Antigo Testamento: os cinco livros de Moisés (Gênesis a Deuteronômio, chamados de Pentateuco ou Lei), os livros históricos (Josué a Ester), os poéticos e de sabedoria (Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares) e os profetas (Isaías a Malaquias).

No Novo Testamento: quatro Evangelhos, que contam a vida de Jesus de quatro ângulos; Atos, a história da igreja nascendo; as cartas de Paulo e de outros apóstolos para igrejas e pessoas; e Apocalipse, uma visão do fim.

Isso importa na hora de ler. Um provérbio é uma observação sobre como a vida costuma funcionar, não uma promessa com garantia. Um salmo é uma oração, às vezes de alguém furioso ou desesperado. Uma carta de Paulo responde a problemas concretos de uma igreja concreta. Ler cada coisa como o que ela é já resolve metade das confusões.

Quem escreveu a Bíblia

Cerca de 40 pessoas, ao longo de uns 1.500 anos — de Moisés, por volta de 1400 a.C., até João escrevendo o Apocalipse no fim do primeiro século d.C. Isso significa que o primeiro autor e o último estão mais distantes entre si do que nós estamos de Carlos Magno.

E eram pessoas muito diferentes. Moisés escreveu lei e narrativa, com a precisão de quem organizava um povo. Davi foi guerreiro e rei, e compôs boa parte dos Salmos — poesia, com imagens e repetições. Salomão, seu filho, deixou Provérbios e Eclesiastes. Amós, antes de ser profeta, cuidava de ovelhas e colhia figos. Isaías circulava na corte de Jerusalém.

No Novo Testamento a variedade continua. Pedro e João eram pescadores na Galileia. Mateus cobrava impostos. Lucas era médico e abre o Evangelho dizendo que investigou tudo com cuidado, consultando quem viu — e depois escreveu também o livro de Atos. Marcos escreveu o relato mais curto e mais direto. Paulo, um rabino culto que perseguia cristãos antes de se converter, escreveu treze cartas, de Romanos a Filemom.

Olha o que isso produz: a Bíblia não tem um estilo. Tem dezenas. Dá para perceber quando se passa de Marcos para João, ou dos Salmos para Levítico. Cada autor escreveu com o próprio vocabulário, a própria formação, a própria história. A pergunta óbvia, então, é como um livro assim pode ser "soprado por Deus".

Como Deus inspirou autores humanos sem apagá-los

A resposta mais clara da própria Bíblia está em Pedro, falando sobre como os profetas escreveram:

Zab è muna ne hì shii, nowkhlei bo, jigigamthek shii chaig pha ji shii gethek hanyie magunde gethek lum ayao mua phro. Chiih-è chaigthek ro mua bran è yang pha ji è athog ro, jishii branthek ne Ragung So iliing shii phrai ne ithek yao pha mua jine Hamangkhung-aphuii è thog ro.(2 Phithar 1:20,21)

Repare nas duas pontas da frase. Por um lado, a profecia não nasceu da vontade do homem — ninguém sentou e decidiu inventar uma mensagem de Deus. Por outro, foram homens que falaram, movidos pelo Espírito. Pedro não diz que o Espírito falou e os homens ficaram quietos. Diz que os homens falaram, e o Espírito os movia.

A palavra "movidos" é a mesma usada em Atos para um navio levado pelo vento. O barco não vira o vento; continua barco, com o seu casco e as suas velas. Mas vai para onde o vento leva.

Essa é a figura que a tradição evangélica histórica usa para falar de inspiração — e a teologia reformada deu a ela um nome, inspiração verbal e plenária: verbal porque alcança as palavras, não só as ideias; plenária porque alcança o texto todo, não só as partes "espirituais". A igreja católica afirma a mesma coisa em essência no documento Dei Verbum, do Concílio Vaticano II: Deus é autor, e os homens são autores de verdade, usando as próprias faculdades.

Nem toda corrente cristã lê assim. Parte da teologia liberal, desde o século XIX, prefere dizer que a Bíblia contém a Palavra de Deus ou testemunha dela, sem que cada afirmação do texto venha do sopro divino. É uma leitura que existe e que precisa ser conhecida. Mas vale ser honesto sobre a premissa: a Bíblia fala de si mesma do jeito de Paulo e Pedro, e Jesus a tratou assim.

Jesus, no deserto, respondeu ao diabo citando Deuteronômio — "nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus" (Mateus 4). Ele chamou de "palavra que sai da boca de Deus" um texto que Moisés escreveu séculos antes. E disse que céu e terra passariam, mas as suas palavras, não (Mateus 24). Hebreus vai no mesmo rumo ao chamar a Palavra de Deus de viva e eficaz, mais cortante que uma espada de dois gumes (Hebreus 4) — não um texto que a gente examina de fora, mas um texto que examina a gente.

Qual é a mensagem da Bíblia

Jesus Cristo. Essa é a resposta curta, e quem deu foi ele mesmo. Discutindo com líderes religiosos que conheciam as Escrituras de cor, Jesus disse que elas falavam dele:

Nathek ne jigigam shii ne tham bo, nyieliieshii nathek aishii ne idang pha chai um ro è now, chiih-è hì pha jigigam è de gu chiang shii yao.(Jon 5:39)

E depois da ressurreição, andando na estrada de Emaús com dois discípulos que não o reconheceram, ele fez uma aula inteira sobre isso:

Chiihphado Isu è ithek shii yao, "Nathek ne khama bi-ìe ro, ithek ne chaigthek miyao jishii zab migi rek pha khama rasey ara ro! Masi ne diig rek srane awairo biisiie shii khud pha mugak asi bey?" Chiih-è Moses mizey pha jigigam ji è jao ne chaigthek mizey pha jigigam ji è yie srane awai shii khi è yao ne zey ne um pha miyao Isu è ithek shii isiie è yua.(Lug 24:25-27)

"Começando por Moisés e por todos os profetas" é um jeito de dizer: o Antigo Testamento todo. Jesus não apontou dois ou três versículos messiânicos. Disse que a história inteira, de Gênesis a Malaquias, apontava para o sofrimento e a glória do Cristo.

Como isso funciona na prática? A história da Bíblia tem quatro atos, e Jesus é o centro deles.

Criação. Deus faz o mundo e o declara bom, e faz o homem e a mulher à sua imagem para viverem com ele. É o ponto de partida: a vida como deveria ser.

Queda. Adão e Eva desconfiam de Deus e desobedecem. A morte entra, a relação com Deus se quebra, e tudo a partir daí — a violência de Caim, o dilúvio, Babel — mostra o estrago se espalhando. Mas já em Gênesis 3 Deus promete que um descendente da mulher vai esmagar a serpente.

Redenção. É o ato mais longo. Deus escolhe Abraão e promete abençoar todas as nações por meio dele. Liberta Israel do Egito, dá a lei, levanta reis e profetas. Israel falha repetidamente, e os profetas anunciam um rei da linhagem de Davi, um servo que vai sofrer pelo pecado do povo, uma nova aliança escrita no coração. Então Jesus nasce, vive sem pecado, morre na cruz no lugar dos pecadores e ressuscita — é esse "assim convinha que o Cristo padecesse" de Lucas 24. O Novo Testamento é a notícia de que a promessa se cumpriu e a explicação do que isso muda.

Consumação. Apocalipse termina onde Gênesis começou: um jardim, uma árvore da vida, Deus habitando com o seu povo. Só que agora sem serpente, sem morte, sem lágrima. A história fecha o círculo.

Foi exatamente assim que a primeira igreja leu o Antigo Testamento. Quando Filipe encontra um oficial etíope numa estrada deserta perto de Gaza, o homem está lendo Isaías 53 — o servo que sofre — sem entender de quem se trata. Filipe senta ao lado dele e, diz Lucas, "começando por esta Escritura, anunciou-lhe a Jesus" (Atos 8). Partiu de um profeta de 700 anos antes e chegou em Cristo. Essa é a mensagem.

Dois homens em uma carruagem no deserto leem juntos um rolo aberto.

Paulo diz a mesma coisa de outro jeito: o evangelho é o poder de Deus para salvar todo o que crê, e nele se revela a justiça de Deus — "como está escrito" (Romanos 1). Para Paulo, a boa notícia de Jesus não contradiz o Antigo Testamento; é o que ele estava prometendo.

Vale notar que isso não transforma cada versículo numa referência secreta a Jesus. Provérbios continua sendo sabedoria sobre dinheiro e língua; Levítico continua sendo lei para Israel. O que muda é a direção: todas essas partes cabem numa história que vai desembocar nele.

Em que línguas a Bíblia foi escrita

Três. O Antigo Testamento foi escrito quase todo em hebraico, a língua de Israel. Alguns trechos curtos de Esdras e de Daniel estão em aramaico, a língua franca do Oriente Médio depois do exílio babilônico — era, inclusive, a língua que Jesus falava no dia a dia. E o Novo Testamento inteiro foi escrito em grego, o grego comum do século I, chamado koiné.

Isso explica uma coisa curiosa. Quando o Novo Testamento cita o Antigo, muitas vezes a citação não bate palavra por palavra com o que está no seu Antigo Testamento. É porque os apóstolos costumavam citar a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento feita em Alexandria uns dois séculos antes de Cristo — a Bíblia que os judeus de língua grega usavam. Não é erro; é tradução citando tradução.

Também explica por que existem tantas versões em português. Nenhuma tradução é a Bíblia "original"; todas estão tentando trazer o hebraico e o grego para a nossa língua, e cada uma faz escolhas diferentes entre ficar perto da forma do texto ou perto do jeito como falamos hoje. Comparar duas versões num versículo difícil quase sempre ajuda mais do que atrapalha.

Por que a Bíblia católica tem 73 livros e a protestante, 66

Essa é a pergunta que aparece logo depois de "o que é a Bíblia", então vale explicar direito. A diferença está toda no Antigo Testamento; o Novo Testamento é idêntico, com os mesmos 27 livros, em todas as igrejas cristãs.

A Bíblia católica tem sete livros a mais — Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruque — além de trechos adicionais em Daniel e Ester. A igreja católica os chama de deuterocanônicos, "do segundo cânon"; a tradição protestante os chama de apócrifos.

De onde vêm? Foram escritos por judeus entre o fim do Antigo Testamento e o nascimento de Jesus, em grande parte em grego, e circulavam na Septuaginta. Mas nunca entraram no cânon hebraico, a lista de livros que os judeus reconheciam como Escritura — e que é a mesma lista dos 39 livros protestantes, só que agrupados de outro jeito.

Na Reforma, no século XVI, os reformadores tomaram o cânon hebraico como medida: o Antigo Testamento é o conjunto de livros que Jesus e os apóstolos tinham como Escritura, e eles nunca citam os deuterocanônicos como Palavra de Deus. Lutero chegou a imprimi-los na sua Bíblia, mas numa seção à parte, como leitura útil e não como regra de fé. A igreja católica respondeu no Concílio de Trento, em 1546, confirmando os sete livros como canônicos. As igrejas ortodoxas aceitam esses e ainda alguns outros.

É uma divergência real entre cristãos, e as duas tradições têm argumentos históricos sérios. O que ela não afeta é o centro: a história de criação, queda, redenção e consumação, e tudo o que a Bíblia ensina sobre quem é Jesus, está nos 66 livros que todos têm em comum.

Para que a Bíblia serve, segundo ela mesma

Volte à frase de Paulo a Timóteo. Depois de dizer que toda a Escritura é soprada por Deus, ele diz para que ela é útil: ensinar, repreender, corrigir e educar na justiça — para que a pessoa de Deus fique preparada para toda boa obra. Quatro verbos, e nenhum deles é "informar". A Bíblia foi dada para formar gente, não para preencher a cabeça.

É por isso que Lucas elogia os judeus de Bereia: eles ouviram Paulo pregar e, em vez de aceitar ou rejeitar de cara, "examinavam diariamente as Escrituras para ver se as coisas eram assim" (Atos 17). Nem a pregação de um apóstolo ficou acima do texto. Essa é a postura que a Bíblia pede de quem a lê: abrir, conferir, deixar que ela corrija.

Paulo escreveu essa carta da prisão, perto do fim da vida, para um jovem pastor que ia ficar sem ele. O que deixou nas mãos de Timóteo não foi um método nem uma lista de regras. Foi a Escritura, soprada por Deus, suficiente para o preparar para tudo. Leia 2 Timóteo 3 inteiro e veja o versículo 16 no lugar dele: no meio de uma despedida.

Quantos livros tem a Bíblia?

A Bíblia protestante tem 66 livros: 39 no Antigo Testamento e 27 no Novo. A Bíblia católica tem 73, porque inclui sete livros a mais no Antigo Testamento (Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruque) e trechos adicionais em Daniel e Ester. O Novo Testamento é o mesmo nas duas.

Quanto tempo levou para a Bíblia ser escrita?

Cerca de 1.500 anos. Os livros de Moisés são tradicionalmente datados por volta de 1400 a.C., e o último livro, Apocalipse, foi escrito no fim do primeiro século d.C., por volta do ano 95. Nesse intervalo escreveram cerca de 40 autores diferentes, em três línguas.

Quem decidiu quais livros entrariam na Bíblia?

Nenhum concílio "inventou" a lista. Os livros do Antigo Testamento já eram reconhecidos como Escritura pelos judeus antes de Jesus, e ele mesmo os tratou assim. Os 27 livros do Novo Testamento foram reconhecidos aos poucos pelas igrejas, pelo critério de origem apostólica e uso generalizado; a lista aparece completa na carta de Atanásio em 367 d.C. e foi confirmada em concílios regionais no fim do século IV. A diferença entre católicos e protestantes está só nos sete livros deuterocanônicos do Antigo Testamento.

A Bíblia tem contradições?

Existem passagens que parecem conflitar — quatro Evangelhos contando o mesmo episódio com detalhes diferentes, por exemplo. A tradição evangélica histórica entende que isso é efeito de autores humanos reais escrevendo de ângulos reais, e que, lidas no contexto e no gênero certo, as passagens se harmonizam. Outras correntes cristãs aceitam que há tensões sem resolver e não veem nisso ameaça à mensagem. Em todo caso, a história central — criação, queda, redenção em Cristo, consumação — é a mesma do começo ao fim.

Por onde começar a ler a Bíblia?

Pelos Evangelhos, de preferência Marcos ou João: são o centro da história e os textos mais diretos sobre quem é Jesus. Depois, Gênesis, para entender de onde a história vem, e Romanos, para entender o que ela significa. Ler de Gênesis a Apocalipse em ordem também funciona, mas muita gente desanima em Levítico; não há nada de errado em começar pelo meio.

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