Pular para o conteúdo
Publicidade

Como eram os costumes na época de Jesus? Vida no NT

Moradores de vilarejo antigo caminham, vendem frutas e pão e buscam água em rua de pedra.

Como era a vida na época de Jesus

A vida de uma família comum na Galileia girava em torno de três coisas: a aldeia, a Lei de Deus e Roma. A aldeia era casa, parentes, ofício e vizinhos — quase todo mundo vivia da terra, da pesca ou de um trabalho manual, em vilarejos pequenos onde todos se conheciam. A Lei marcava a semana (o sábado), o ano (as festas em Jerusalém), a roupa, a comida e até o jeito de lavar as mãos. E Roma estava em cima disso tudo: cobrava imposto, mandava soldado e decidia quem governava.

Os Evangelhos não param para descrever esse mundo, porque quem os leu primeiro já vivia nele. Mas ele aparece o tempo todo nas entrelinhas. Olha só o que os vizinhos de Nazaré dizem quando Jesus volta para pregar na cidade onde cresceu:

Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? Não estão aqui conosco as suas irmãs?

E encontraram motivo de tropeço nele.(Marg 6:3, NVI)

Num versículo só, você tem o ofício (carpinteiro), a família (mãe, quatro irmãos nomeados, irmãs), a aldeia (todo mundo sabe quem é quem) e a mentalidade (um homem de ofício não deveria estar ensinando assim). É esse mundo que as seções abaixo abrem, uma peça por vez.

Casa, família e trabalho: a rotina de uma aldeia

A família era a unidade de tudo. O lar era chefiado pelo pai, e o filho normalmente aprendia o ofício dele. É por isso que Jesus é "o carpinteiro" em Marcos 6:3 e "o filho do carpinteiro" em Mateus 13: o ofício de José passou para ele. A palavra grega ali é tekton, que é mais larga que "carpinteiro" — um artesão que trabalha com madeira e, pelo que se sabe do período, também com pedra. Numa aldeia pequena, era quem fazia porta, viga, arado, banco.

As casas, pelo que a arqueologia da Galileia mostra, eram de pedra ou tijolo de barro, com um ou dois cômodos, teto plano e um pátio que várias famílias podiam dividir. Isso é contexto histórico, não texto bíblico — mas o texto confirma de lado. Quando quatro homens não conseguem entrar numa casa lotada em Cafarnaum, eles sobem e abrem o teto para descer o paralítico (Marcos 2). Só dá para fazer isso num teto de barro e vigas, baixo o bastante para subir.

O dia começava com o sol e o pão. Não havia padaria no sentido de hoje: as mulheres moíam o grão e assavam em casa, e Jesus usa essa cena como coisa óbvia quando fala de "duas mulheres trabalhando num moinho" (Mateus 24). A casa era escura o suficiente para que achar uma moeda perdida exigisse acender uma lamparina e varrer tudo (Lucas 15). E pedir pão ao vizinho no meio da noite era constrangedor, mas possível, porque a vida era próxima assim (Lucas 11).

Quem não tinha terra nem ofício vivia de diária. Na parábola dos trabalhadores da vinha, o dono acerta com eles "um denário por dia" (Mateus 20) — a moeda romana que valia, grosso modo, o sustento de um dia. Esse número ajuda a ler o resto do Novo Testamento: quando alguém gasta trezentos denários num perfume, está gastando quase um ano de salário.

Carpinteiro aplaina uma viga enquanto duas crianças o observam e uma mulher mói grãos.

O sábado e a sinagoga: o ritmo da semana

A semana tinha um centro fixo: o sábado. O mandamento vem de Êxodo 20 — seis dias de trabalho, um dia de descanso para toda a casa, inclusive servos e animais. No tempo de Jesus, esse dia era também o dia da sinagoga. Lucas diz que Jesus foi à sinagoga de Nazaré num sábado "como era seu costume" (Lucas 4): levantou-se para ler, recebeu o rolo de Isaías, leu, devolveu ao assistente e sentou-se para ensinar.

Esse trecho é a melhor foto que o Novo Testamento dá de um culto de sinagoga. Dá para ver a sequência: leitura das Escrituras, depois ensino. Atos 13:15 completa a cena noutra sinagoga, onde "depois da leitura da Lei e dos Profetas" os dirigentes convidam um visitante a falar. Vale notar: não há sacrifício na sinagoga. Ela é lugar de ouvir a Palavra e orar.

A sinagoga tinha dirigentes — Jairo é "um dos principais da sinagoga" em Marcos 5:22 — e lugares de honra na frente, que Jesus critica os escribas por disputarem (Marcos 12). Fontes judaicas posteriores ao primeiro século descrevem a sinagoga também como escola das crianças e lugar onde se resolviam disputas locais. Isso é plausível e muito citado, mas é bom saber que vem de fora dos Evangelhos — eles mostram a sinagoga como lugar de leitura, ensino, oração e cura, e param aí.

E o que se ouvia ali, acima de tudo, era a Lei. Quando um mestre pergunta a Jesus qual é o maior mandamento, a resposta dele é a oração que todo judeu recitava desde criança:

— Mestre, qual é o maior mandamento da lei?

Jesus respondeu:

— "Ame ao Senhor, o seu Deus, com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todo o seu entendimento".Este é o primeiro e maior mandamento.(Methiu 22:36-38, NVI)

Jesus está citando Deuteronômio 6, o Shemá ("Ouve, ó Israel"). O texto de Deuteronômio mandava ensinar essas palavras aos filhos, repeti-las em casa e no caminho, ao deitar e ao levantar. Para a maioria das pessoas, que não tinha um rolo em casa, a fé era isso: palavras decoradas, repetidas em família, ouvidas em voz alta no sábado.

Templo e sinagoga: qual era a diferença

É fácil misturar os dois, mas eles faziam coisas diferentes. Sinagoga havia em cada aldeia; Templo havia um só, em Jerusalém. A sinagoga era o lugar da Palavra; o Templo era o lugar do sacrifício, dos sacerdotes e das festas.

Veja como isso aparece na própria família de Jesus. Quarenta dias depois do nascimento, Maria e José vão ao Templo para a purificação e oferecem "um par de rolas ou dois pombinhos" (Lucas 2). Isso é um sacrifício, e sacrifício só se fazia ali. Doze anos depois, o menino Jesus é encontrado no Templo "sentado entre os mestres" (Lucas 2:46) — o Templo também era onde os grandes mestres ensinavam. Adulto, ele expulsa vendedores e cambistas do pátio (Marcos 11:15), que estavam lá porque peregrinos precisavam trocar moeda e comprar animais para o sacrifício, e observa gente colocando dinheiro no gazofilácio, a caixa das ofertas (Marcos 12:41).

O Templo também recebia um imposto próprio, distinto do de Roma: em Mateus 17:24, cobradores perguntam se Jesus paga a didracma, a taxa do Templo. Uma família judia, portanto, sustentava duas estruturas ao mesmo tempo — a de Deus e a de César. Guarde isso para a seção sobre Roma.

E as pessoas iam ao Templo. Não todos os sábados, porque ficava longe, mas nas festas:

Todos os anos os pais de Jesus iam a Jerusalém, para a Festa da Páscoa.(Lug 2:41, NAA)

Esse "todos os anos" obedecia a Deuteronômio 16, que mandava os homens de Israel se apresentarem diante do Senhor três vezes por ano. As três festas de peregrinação eram:

  1. Páscoa, na primavera, lembrando a saída do Egito. É a festa de Lucas 2:41 e a da última semana de Jesus.

  2. Pentecostes (Festa das Semanas), cinquenta dias depois, no fim da colheita do trigo. É a festa de Atos 2:1. A tradição judaica a associa também à entrega da Lei no Sinai — associação antiga e respeitada, mas que a Bíblia não faz explicitamente.

  3. Festa dos Tabernáculos, no outono, quando se morava em cabanas por uma semana lembrando os anos no deserto. É a festa de João 7:2.

Da Galileia a Jerusalém eram vários dias de caminhada. Uma família que fazia isso todo ano, como a de Jesus, estava organizando o calendário, o dinheiro e o trabalho em torno do Templo. A fé não era um compartimento da vida: era o relógio dela.

Roupa, pureza e comida: a Lei no corpo

A Lei não ficava só na sinagoga. Ela estava literalmente na roupa. Números 15 mandava costurar franjas nas pontas das vestes, com um fio azul, para que ao olhá-las a pessoa se lembrasse dos mandamentos. E Deuteronômio 6:8, aquele mesmo trecho do Shemá, falava em atar as palavras de Deus "como sinal na mão" e "entre os olhos" — o que no tempo de Jesus era praticado ao pé da letra com os filactérios: pequenas caixas de couro com trechos da Lei, amarradas no braço e na testa durante a oração. Que esse hábito existia, o próprio Jesus confirma:

Praticam todas as suas obras a fim de serem vistos pelos outros; pois alargam os seus filactérios e alongam as franjas de suas capas.(Methiu 23:5, NAA)

Repare no que Jesus critica e no que não critica. Ele não condena franjas nem filactérios — ele mesmo usava franjas, tanto que a mulher doente toca "a borda do manto" dele para ser curada (Mateus 9), e a palavra grega ali é a mesma usada para essas franjas. O problema era alargá-las para serem vistas. A prática em si era um lembrete; o abuso era transformar o lembrete em vitrine.

A roupa básica era simples: uma túnica por baixo e um manto ou capa por cima, que servia de agasalho e, para o pobre, de cobertor. É por isso que Jesus pode dizer "se alguém quiser tirar a sua túnica, deixe-lhe também a capa" (Mateus 5) — ele está falando das duas únicas peças que a maioria tinha. A Lei protegia a capa do pobre: Êxodo 22:26-27 proibia ficar com ela como garantia de dívida depois do pôr do sol, "porque é a única coberta dele".

A comida também passava pela Lei: havia animais puros e impuros, e, além disso, regras de pureza ritual que foram se acumulando pela tradição. Marcos registra uma dessas regras com precisão de repórter: os fariseus "não comem sem lavar as mãos cerimonialmente, apegando-se à tradição dos anciãos", e lavavam também copos, jarros e vasilhas (Marcos 7). Vale notar o cuidado do texto: ele chama isso de "tradição dos anciãos", não de mandamento — e é exatamente essa distinção que Jesus vai explorar no resto do capítulo.

Roma: imposto, moeda e soldado

Tudo isso acontecia dentro de um império. Lucas situa o nascimento de Jesus num censo decretado por César Augusto (Lucas 2:1) e abre o ministério dele listando quem mandava: Tibério em Roma, Pilatos como governador da Judeia, Herodes como tetrarca da Galileia (Lucas 3). Isso mostra um detalhe que muita gente não sabe: a Judeia e a Galileia eram administradas de forma diferente. Jerusalém tinha um governador romano direto; a Galileia de Jesus era governada por um rei vassalo, da família de Herodes, que respondia a Roma.

Para o povo, Roma se sentia principalmente no bolso. Havia imposto sobre a terra, sobre a pessoa, sobre mercadorias em trânsito — e tudo isso pago em moeda com a cara do imperador. É essa moeda que Jesus pede para ver quando tentam encurralá-lo com a pergunta sobre pagar ou não pagar o tributo. "De quem é esta imagem?", ele pergunta (Mateus 22:20). E então:

— De César — responderam.

Então, ele lhes disse:

— Deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.(Methiu 22:21, NVI)

A pergunta era uma armadilha política de verdade. Dizer "paguem" soava como submissão ao ocupante; dizer "não paguem" era rebelião, crime capital. Jesus responde com uma distinção, não com um partido: há o que é de César e há o que é de Deus, e a moeda com a cara dele é de César. Uma leitura evangélica tradicional entende aqui o princípio de que a autoridade civil é legítima dentro do seu limite, e Deus está acima dela — mas o texto é curto e cristãos de várias tradições extraem dele ênfases diferentes.

Quem cobrava esse imposto eram os publicanos, judeus que arrendavam a cobrança do governo e lucravam com o que conseguissem a mais. Por isso eram odiados: trabalhavam para o ocupante e ficavam ricos à custa dos vizinhos. Zaqueu, em Jericó, era "chefe dos publicanos, e rico" (Lucas 19:2). O que Jesus faz com ele era chocante para quem assistia:

Quando Jesus chegou àquele lugar, olhou para cima e lhe disse:

— Zaqueu, desça depressa, porque hoje preciso ficar na sua casa.(Lug 19:5, NVI)

Hospedar-se na casa de um publicano era, aos olhos do povo, aprovar o publicano — e a multidão reclama exatamente disso em Lucas 19:7. A resposta de Zaqueu mostra que ele entendia o que a sua profissão fazia: ele promete devolver em quádruplo "se de alguém extorqui alguma coisa" (Lucas 19:8). O "se" ali é delicado; a prática era conhecida.

Roma também se sentia na rua. Um soldado podia obrigar um civil a carregar sua carga por um certo trecho, e Jesus se refere a isso quando diz "se alguém o forçar a caminhar uma milha, vá com ele duas" (Mateus 5). É o mesmo direito que os soldados usam para obrigar Simão de Cirene a carregar a cruz (Mateus 27:32). Havia um centurião estabelecido em Cafarnaum (Mateus 8:5), e em Jerusalém a guarnição era romana. Ocupação, para quem vivia ali, não era um conceito — era um homem armado na esquina.

Mesa, hospitalidade e casamento: o que os gestos diziam

Numa sociedade assim, sem anonimato, os gestos sociais pesavam muito. Comer com alguém era aceitar aquela pessoa. Quando Jesus senta à mesa no banquete de Levi, cheio de publicanos, os fariseus não perguntam o que ele disse — perguntam por que ele come com aquela gente (Lucas 5). E a acusação volta em Lucas 15:2: "recebe pecadores e come com eles". Para eles, a mesa dizia tudo.

A hospitalidade tinha um roteiro. Jesus o recita, item por item, quando um fariseu o recebe mal: água para os pés, um beijo de saudação, óleo na cabeça (Lucas 7). Lavar os pés fazia sentido prático — estradas de terra, sandálias abertas — mas era sobretudo sinal de que o hóspede era bem-vindo. Omitir isso era um recado. Nos banquetes, as pessoas comiam reclinadas (João 13:23 descreve o discípulo "reclinado" ao lado de Jesus), e a posição à mesa indicava quem era mais importante; Jesus aproveita isso para ensinar humildade em Lucas 14.

O casamento acontecia em duas etapas. Primeiro o noivado, que já era um vínculo legal: Mateus 1:18-19 chama José de "marido" de Maria enquanto os dois ainda estão só prometidos, e ele cogita "divórcio" — porque, pela Lei, a noiva já era tratada como esposa (Deuteronômio 22:23-24). Depois vinha a festa, quando o noivo buscava a noiva e a levava para casa dele. A parábola das dez virgens descreve essa noite: a espera, as lamparinas, o noivo chegando tarde, a porta que se fecha (Mateus 25).

A festa podia durar dias. Em Caná, o vinho acaba no meio da celebração (João 2) — um vexame para a família, e uma pista de que se tratava de algo longo. O Antigo Testamento fala de festas de casamento de uma semana (Gênesis 29:27; Juízes 14:12). Que os casamentos eram em geral arranjados pelas famílias, e com interesse em preservar terra e linhagem, é contexto histórico bem apoiado — Gênesis 24 mostra o padrão —, mas o Novo Testamento não gasta tempo explicando isso.

O que ele faz é mais interessante: diante de um mundo de contratos de noivado, dotes e festas, Jesus volta ao começo e define o casamento pelo que Deus fez, não pelo que as famílias combinaram. "O que Deus uniu, ninguém separe", em Mateus 19, citando Gênesis 2.

Para que serve saber disso

Quando os vizinhos de Nazaré perguntam "não é este o carpinteiro?", eles estão dizendo que conhecem o mundo dele por inteiro — a oficina, a mãe, os irmãos, a sinagoga onde ele leu Isaías, as festas para as quais ele subiu todo ano. E é exatamente nesse mundo, de pão assado em casa, imposto em moeda romana e pés lavados na porta, que a história dos Evangelhos acontece. Ler Marcos 6:3 sabendo o que cada palavra pressupõe é ler o versículo como quem estava lá. Leia a cena inteira em Marcos 6.

Que língua Jesus falava?

No dia a dia, aramaico — os Evangelhos preservam algumas frases dele nessa língua, como "Talitá cumi" em Marcos 5:41. As Escrituras eram lidas em hebraico, e o grego era a língua do comércio e da administração; a placa na cruz foi escrita em hebraico, latim e grego (João 19:20). É razoável concluir que ele entendia hebraico, por ler na sinagoga, e provavelmente algo de grego, mas o texto não detalha.

Jesus era pobre?

A família dele era de gente de ofício, não de miseráveis, mas vivia com pouco. Uma pista está em Lucas 2:24: Maria e José oferecem dois pombinhos na purificação, que era a oferta que Levítico 12:8 reservava para quem não tinha condições de levar um cordeiro. É uma inferência a partir do texto, não uma afirmação direta dele.

Quanto valia um denário?

Era a diária de um trabalhador braçal, segundo Mateus 20:2. Não dá para converter em dinheiro de hoje com precisão, mas a proporção ajuda: o perfume de trezentos denários em Marcos 14:5 equivalia a quase um ano de trabalho.

Por que fariseus e publicanos eram inimigos?

Os fariseus se dedicavam a cumprir a Lei com rigor, inclusive nas regras de pureza; os publicanos cobravam imposto para o ocupante romano e eram vistos como traidores e desonestos. Comer na mesma mesa, para um fariseu, era contaminar-se — por isso o escândalo quando Jesus faz isso em Lucas 5:30 e Lucas 19:7.

A Galileia e a Judeia eram governadas do mesmo jeito?

Não. Lucas 3:1 mostra que a Judeia tinha um governador romano direto, Pilatos, enquanto a Galileia era governada por Herodes Antipas, um rei local sob Roma. Por isso, no julgamento de Jesus, Pilatos o envia a Herodes quando descobre que ele é galileu (Lucas 23:6-7).

Erích de Araújo
1 pessoa deu Amém

Este artigo te tocou? Faça uma oração!

+581 estão orando agora.

Junte-se à corrente de oração.