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O que é a graça de Deus e como ela transforma a vida

Redação Bíblia Online Publicado em

O que é a graça de Deus

Homem com mochila e mala recebe de braços abertos um homem na escada de uma casa.

Graça é Deus dando o que ninguém tem como merecer, pagar nem exigir. É favor sem contrapartida: o perdão, a salvação e o sustento oferecidos a quem chega de mãos vazias — não porque a pessoa fez por merecer, mas porque Deus quis dar.

A palavra do Novo Testamento é cháris, em grego. No mundo em que Paulo escrevia, ela era usada para o favor que alguém poderoso concedia a quem estava abaixo — e esse favor quase sempre criava uma dívida: quem recebia ficava obrigado a retribuir com gratidão pública, lealdade, serviço. Paulo pega essa palavra do dia a dia e arranca dela a parte da dívida. Nas mãos de Deus, esse favor não pode ser devolvido, só recebido.

É isso que Efésios 2:8-9 diz, e por isso essa é a passagem que define o assunto:

Nde ne nzuav guigira Krais khothɨgim, Fhe Bakɨme won kora muumbarara, ana taagia nde ndigi. Khe nde nduarira muuŋgi bigeŋ fhuvara. Zakɨra fhuvara! Fhe Bakɨme fhura mba bigen nde nɨɨŋgi. Khe nde ŋaara the muuŋgim, ana nen vhezar nde nɨɨŋgi fhuvara. Nde ne suaŋv nde guma the nduara wo zɨ ndiv vun kuamkua thari.

Vale olhar os pedaços. "Pela graça": a causa está em Deus. "Por meio da fé": a fé é a mão que recebe, não o pagamento. "Dom de Deus": no grego, dōron, presente — a palavra que se usa para o que alguém dá sem cobrar. E o fecho, "para que ninguém se glorie", mostra o problema que esse dom resolve: se a salvação viesse do esforço, alguém teria do que se gabar. Não vem, então não há.

Por que precisava ser assim? Romanos 3 dá a razão:

Nza kha nuianan ki gumgi gu mbigi, nza za tɨvi mbatɨgi ga muuŋgi. Nza Fhe Bakɨme muungen nza vuzvugi tɨvir vhuuiŋ vhɨrve nza za ntan muuŋgirga tuktɨgi fhuvara. Fhe Bakɨme fhura nza kora muuŋgiap, ana Krais Zisas muuŋgi ŋaarar panan, ana taagi nza vhezgiap, nza ndigap, kha zɨn nzan kaai, nza tɨvir vhuuiaŋ mbui gumgi gu mbigi ma. Nza nduarira ŋaara vhuuŋ the muuŋgi ne nzuav, ana tɨvir vhuuiaŋ mbui gumgi gu mbigir nzan kaai fhuvara. Zakɨra fhuvara! Fhe Bakɨme fhura Krais Zisasan ŋaara panan mba zɨn nza nɨɨŋgi.(Rom 3:23,24)

"Todos pecaram." Não a maioria; todos. É por isso que esse favor não pode ser prêmio: não sobrou ninguém para premiar. Daí o "gratuitamente" do versículo 24 — no grego, dōreán, a mesma palavra que em outros lugares se traduz por "de graça" ou "sem motivo". "Justificar" é linguagem de tribunal: dar um veredito de inocência. Deus declara justo quem não tinha como provar inocência, e faz isso com base na redenção em Cristo, não no histórico da pessoa.

Efésios 2 ainda descreve o estado de quem recebe esse dom, e a imagem é forte:

Khueŋ guigira, nza mbui tɨvi mbatɨgi nza shogim, nza vhɨzgi. Nza za vhɨzgi gumgi fara muuŋgiap wari ki. Nza maaŋ muuŋgim, Fhe Bakɨmen kora muumbar, ana guigira kɨvgi. Ana guigira won ndavar nza nɨɨŋgi. Ana maaŋ muuŋgiap, nza muuŋgim, nza Krais phorgap taagia khavgi fara muuŋgiap wari kav, nza tɨvir ŋkaa zɨn vui. Ahaŋ, Fhe Bakɨmen kora muumbarara, ana taagia nza ndigi.(Efesus 2:4,5)

Mortos. Não doentes, não cansados, não "precisando de uma ajudinha". Morto não colabora com a própria ressurreição. Paulo escolhe essa palavra porque ela elimina qualquer leitura em que a pessoa faz metade do caminho e Deus completa a outra metade. Deus age primeiro, enquanto ainda não havia resposta possível do outro lado.

Isso aqui é importante: a graça não é Deus baixando a régua. A exigência continua sendo justiça perfeita. O que muda é quem paga por ela.

Este artigo faz parte de Estudos Bíblicos Doutrinas e Teologia

Graça e misericórdia: qual é a diferença

Efésios 2:4-5 põe as duas palavras lado a lado — "rico em misericórdia" e "pela graça" — e elas não são sinônimos, embora andem sempre juntas.

Uma distinção que a tradição cristã usa há séculos e que funciona bem: misericórdia é Deus não dar o castigo que a pessoa merecia; graça é Deus dar o bem que a pessoa não merecia. A misericórdia olha para a miséria e se compadece; o favor olha para o vazio e enche. O condenado perdoado recebe misericórdia. O condenado perdoado e adotado como filho recebe graça.

O Antigo Testamento é onde essa combinação aparece com mais frequência, e o Salmo 103 é um bom exemplo:

Esse versículo não é invenção do salmista. Ele está repetindo quase palavra por palavra o que Deus disse de si mesmo a Moisés, na cena em que passa diante dele no monte, em Êxodo 34: compassivo, misericordioso, lento para se irar, grande em amor leal. Ou seja: a descrição que Israel tinha de Deus, repetida em salmos e profetas, é a de alguém cujo primeiro movimento é favor, não castigo.

Isaías mostra isso em uma situação concreta:

O contexto é duro. Judá, ameaçado pela Assíria, resolveu buscar aliança com o Egito em vez de confiar em Deus — é o que Isaías 30 chama de rebeldia nos primeiros versículos, e o profeta anuncia consequências. E então vem o versículo 18: o Senhor espera para ter misericórdia. Olha o que está acontecendo: o povo errou, Deus não finge que não errou, e mesmo assim o que ele está esperando é a hora de ser bondoso. A bondade de Deus não ignora o erro; ela decide o que fazer depois dele.

A graça já estava no Antigo Testamento

Muita gente aprende que o Antigo Testamento é lei e o Novo é graça, como se fossem dois Deuses diferentes. Não é o que o texto mostra.

O hebraico tem duas palavras principais para o que o Novo Testamento chama de graça. Hen é o favor que alguém concede livremente — é a palavra de quando Noé "achou graça" aos olhos do Senhor, em Gênesis 6. Hesed é o amor leal, a bondade que mantém a aliança mesmo quando o outro lado quebrou o combinado; é o que o Salmo 103:8 traduz por "amor leal", "benignidade" ou "bondade", conforme a versão.

O Salmo 130 mostra para que serve esse favor:

"Profundezas" é imagem de quem afunda — mar, poço, água acima da cabeça. Quem está ali não negocia; só clama. E o Salmo 130 continua, nos versículos 3 e 4, com uma pergunta e uma resposta: se Deus levasse em conta cada pecado, quem ficaria de pé? Ninguém — mas com ele está o perdão. É exatamente o raciocínio de Romanos 3: ninguém se sustenta pelo próprio histórico, então o que resta é o perdão que vem de Deus.

E a bênção mais antiga de Israel, a que os sacerdotes pronunciavam sobre o povo, tem esse favor bem no centro. Na NVI ela fica assim:

"O Senhor o abençoe e o guarde;

o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre você

e lhe conceda graça;

o Senhor volte o rosto para você

e lhe dê paz".(Números 6:24-26, NVI)

Vale notar que, no versículo 25, a NVI traduz "lhe conceda graça" onde a ACF e a NAA dizem "tenha misericórdia". O verbo hebraico é hanan, da mesma raiz de hen — favor concedido livremente. As duas traduções estão certas, e a dupla é a mesma de Efésios 2: misericórdia e graça, lado a lado, mais de mil anos antes de Paulo.

A graça não é licença para pecar

Essa é a objeção mais antiga contra a doutrina, e Paulo mesmo a formulou. Romanos 6 abre com a pergunta: se o perdão é gratuito, por que não continuar pecando para que a graça aumente? Se Deus perdoa sem cobrar, o que impede alguém de pecar à vontade?

A resposta, no mesmo capítulo, é esta:

Tɨvi mbatɨgi wom nde ganɨ thari. Ne khaŋ muuŋgi, nde ntigem Moses suaŋgi tɨvi, nde nta piin ki fhuvara. Nde Fhe Bakɨme fhura nde kora muuŋgi kora muumbara piin ki.(Rom 6:14)

Repare na lógica, porque ela é o contrário do que a objeção espera. Paulo não diz "cuidado, se pecar você perde o favor de Deus". Ele diz que é justamente por estar debaixo da graça que o pecado não manda mais. Debaixo da lei, o pecado tem domínio: a lei aponta o erro, mas não dá força para sair dele. Debaixo dela, a pessoa foi "vivificada com Cristo", como disse Efésios 2:5 — e quem tem vida nova não é mais súdito da velha.

Tito diz a mesma coisa com um verbo diferente:

Nza maaŋ muuŋgip Fhe Bakɨme vuzvugi tɨvi zɨn ŋgɨrga. Nza kaŋgi, Fhe Bakɨmen kora muumbar, ana kɨrar hɨgi. Ana za kha nuianan ki gumgi gu mbigi ndigirga tuktɨgi. Mba Fhe Bakɨmen kora muumbar, ana khuen nza khɨvi, nza kɨr Fhe Bakɨme sɨrga tuktɨgi fhu. Nza vhɨra kha nuiana vuzvugi mbatɨgi, tharga. Ana vhɨra khuen nza khɨvi, nza tuituigi piigip tɨvir vhuuiŋra zɨn ŋgɨp za Fhe Bakɨmen tɨva guara zɨn ŋgɨrga. Khueŋ guigira, nza kha nuiana gumgi rɨgar ki. Fhe Bakɨmen kora muumbar ana khuen nza khɨvigi, nza Fhe Bakɨmen tɨvi zɨn ŋgɨrga.(Taitus 2:11,12)

Esse favor "nos educa" — ou "nos instrui", "ensinando-nos", conforme a tradução. No grego é paideúousa, o verbo de criar uma criança, com disciplina e direção. Paulo está dizendo que ela não acontece só no momento da conversão; é uma força que continua formando a pessoa depois, ensinando a dizer não ao que a destrói e a viver de forma sensata, justa e piedosa. O favor que não muda nada não é o que o Novo Testamento descreve.

Aqui vale ser honesto sobre as premissas. A leitura acima é a da teologia evangélica histórica — a mesma que a Reforma resumiu em "somente pela graça". A teologia católica concorda que a salvação começa pelo favor de Deus e é dom dele, mas entende que ele é comunicado também pelos sacramentos e que as boas obras cooperam com ele de um modo que os reformadores rejeitaram. Dentro do próprio campo evangélico há debate sobre se o favor que salva pode ser resistido (posição arminiana e wesleyana) ou se é eficaz em todo aquele a quem Deus o destina (posição reformada). O que nenhuma dessas tradições afirma é que ela seja uma licença: todas leem Tito 2:12 como descrição do que esse favor faz em quem o recebe.

A graça para quem já crê

Quem entende esse favor só como porta de entrada perde metade do assunto. O Novo Testamento usa a palavra tanto para a salvação quanto para o dia a dia de quem já foi salvo.

Hebreus chama o lugar onde Deus atende de "trono da graça":

Maaŋ muuŋgiap, nza nera nzuav Fhe Bakɨme han ŋgɨrga, nza rivɨrga fhu. Ana fhura nza kora mbui guma ma. Nza ana han ŋgɨp ana ganɨnga, ana nzan korar muunga. Nza maaŋ muuŋgip simtɨk kɨrga tugar, anan korar muumbar nzan kurarga.(Hibru 4:16)

Trono é lugar de rei; o favor é o que esse rei distribui. O versículo anterior, em Hebreus 4, explica por que se pode chegar "com confiança": porque o sumo sacerdote que está ali, Jesus, foi tentado em tudo como nós e sabe o que é fraqueza. O que se recebe nesse trono é "misericórdia e graça" — de novo a dupla — para ajuda na hora certa. Não é favor para o passado; é ajuda para a terça-feira à tarde.

Pedro escreve a cristãos perseguidos e chama Deus de "Deus de toda a graça":

Fhe Bakɨme ana mbarkɨrga kora muumbara, ana za ntan nɨɨŋge ma. Ana Krais Zisasan zɨn panan, ana nden kamgi. Nde ana phorgɨp, ana ŋkasŋka vhuuŋ bakɨme, ana zazera mbara muuŋgiap ki, nde ana phorgɨp, anan vhen kɨrga. Maaŋ muuŋgip, nde tuga tɨvaneŋra, nde zaa ndigirga. Ana zumgum nden muuŋgirim, nde nzerarga. Nde ana khothɨgi ndɨkndɨk, ana anan havhargip, nden kurarim, nde ndɨkndɨgi havhargip, nde zazera thɨgɨ havhargirga.(1 Pita 5:10)

"Toda a graça": não só a que perdoa, mas a que restaura, firma, fortalece, põe sobre alicerces. E vale notar a ordem dos acontecimentos: primeiro o sofrimento, depois a restauração. Pedro não promete que ela evita o sofrimento; promete que ela vem depois dele, e que Deus mesmo é quem refaz o que ficou quebrado. Isso importa porque esse favor costuma ser confundido com vida fácil. Para Pedro, ele é o oposto: o que sustenta quando a vida não é fácil.

Efésios 2 do começo ao fim

Efésios 2:8-9 é o versículo-âncora deste assunto, mas ele faz mais sentido com os versículos em volta. Vale ler Efésios 2 do versículo 1 ao 10 de uma vez: a passagem começa com "mortos" e termina com pessoas "criadas em Cristo Jesus para boas obras". É o percurso inteiro desse favor em dez versículos — de onde ele encontra a pessoa até onde a leva.

O que significa "cair da graça" em Gálatas 5?

Paulo escreve a cristãos que estavam voltando a buscar a justificação pela circuncisão e pela lei. "Cair da graça" ali não é cometer um pecado grave: é trocar o fundamento, deixar de confiar no favor de Deus para confiar no próprio desempenho. Quem faz isso, diz Paulo, se afasta de Cristo porque passa a tratar como pagamento o que só existe como presente.

A graça de Deus pode ser perdida?

Os cristãos divergem aqui. A tradição reformada entende que quem foi verdadeiramente alcançado pela graça salvadora é guardado por Deus até o fim (João 10:28-29). A tradição arminiana e wesleyana entende que a pessoa pode, por decisão persistente, abandonar a fé e assim o favor de Deus (Hebreus 6:4-6 é um texto central nesse debate). As duas concordam que ninguém o perde por um tropeço isolado, e que quem o busca de novo o encontra.

O que é "graça comum"?

É o termo que a teologia usa para a bondade de Deus que alcança todas as pessoas, cristãs ou não: chuva, saúde, talento, ordem social, beleza. Jesus fala disso em Mateus 5:45, quando diz que o Pai faz o sol nascer sobre bons e maus. É diferente da graça salvadora, que é o favor que perdoa e dá vida nova, mas vem da mesma fonte.

Por que Paulo começa as cartas com "graça e paz"?

As saudações gregas da época desejavam "alegria" (chaírein); as judaicas, "paz" (shalom). Paulo junta as duas e troca a primeira por cháris, graça. A ordem é proposital: a paz com Deus e com os outros é consequência do favor recebido, não o caminho até ele. Em treze cartas a fórmula aparece com pequenas variações, sempre nessa ordem.

O que quer dizer "graça sobre graça" em João 1?

A expressão descreve o que recebemos da plenitude de Cristo: um favor que não se esgota, uma camada vindo depois da outra. Uma leitura comum é a de graça substituindo graça, como ondas que chegam sem parar; outra vê um contraste com a lei de Moisés, mencionada no versículo seguinte, como se dissesse que ao favor da antiga aliança se acrescentou o favor maior da nova. As duas apontam para a mesma ideia: em Cristo a graça não tem fundo.

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