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História do protestantismo no Brasil: 7 fatos essenciais

Três pessoas em uma igreja antiga: um homem reza, uma mulher lê e outro homem observa.

O primeiro culto protestante do Brasil foi em 1557 — e a liberdade religiosa só veio em 1891

O primeiro culto protestante em solo brasileiro aconteceu em 10 de março de 1557, numa ilha da Baía de Guanabara, celebrado por calvinistas franceses que haviam chegado de Genebra três dias antes. Entre esse domingo e a Constituição de 1891, que finalmente garantiu liberdade de culto a todos, passaram-se 334 anos — e quase todo esse tempo o protestantismo no Brasil viveu de forma clandestina, tolerada ou restrita a estrangeiros.

Essa é a história em uma frase. Os sete fatos abaixo são as peças que a montam: um culto numa ilha, uma confissão de fé escrita em doze horas, uma igreja reformada que durou 24 anos no Nordeste, um tratado que permitiu culto desde que não parecesse culto, vendedores de Bíblia a cavalo, um médico escocês e, por fim, uma República.

Em resumo

  • 1557 — Primeiro culto protestante, Baía de Guanabara (França Antártica)

  • 1558 — Confissão de Fé da Guanabara e execução de três huguenotes

  • 1630–1654 — Igreja Reformada no Brasil Holandês, com traduções para o tupi

  • 1810 — Tratado com a Grã-Bretanha permite culto privado para súditos britânicos

  • 1837 em diante — Colportores circulam Bíblias pelo interior

  • 1855–1859 — Kalley fundam a primeira igreja em português; Simonton chega ao Rio

  • 1890–1891 — Separação Igreja–Estado e liberdade religiosa plena

Fato 1: o primeiro culto foi em 10 de março de 1557, numa ilha do Rio de Janeiro

Em 1555, o almirante francês Nicolas Durand de Villegagnon ocupou uma ilha na entrada da Baía de Guanabara e fundou ali a colônia da França Antártica. Precisava de gente, e escreveu a Genebra pedindo colonos e pastores. A igreja de Genebra, liderada por João Calvino, respondeu enviando um grupo de huguenotes — como eram chamados os protestantes franceses — com dois pastores: Pierre Richier e Guillaume Chartier.

O navio chegou em 7 de março de 1557. Segundo o relato de Jean de Léry, um sapateiro que viajava com o grupo e depois escreveu tudo o que viu, os recém-chegados entoaram o Salmo 5 ao desembarcar. Vale ler esse salmo com a cena na cabeça: é a oração de alguém que acorda cedo, se apresenta diante de Deus e pede para ser guiado em meio a inimigos. Para quem acabava de atravessar o oceano para uma colônia incerta, não era um cântico aleatório.

No domingo seguinte, 10 de março, Richier pregou e celebrou o primeiro culto reformado do continente. Tudo indica que também foi a primeira celebração protestante da Ceia nas Américas.

Grupo de colonos em trajes antigos canta com livretos na praia, com um navio ao fundo.

Por que Genebra mandou pastores para o outro lado do mundo? Porque a Reforma entendia que a ordem de Jesus não tinha fronteira:

E disse-lhes:

— Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura.(Marg 16:15, NAA)

Olha, isso é importante para não romantizar: a França Antártica era, antes de tudo, um projeto militar e comercial da coroa francesa. Mas os huguenotes que embarcaram liam Marcos 16.15 como um chamado também para eles — e foi assim que a Bíblia pregada em língua compreensível chegou ao Brasil pela primeira vez.

Fato 2: a primeira confissão de fé escrita nas Américas custou três vidas

A colônia durou pouco em paz. Villegagnon, que havia pedido os calvinistas, começou a discutir com eles sobre a Ceia e logo os expulsou da ilha. Parte do grupo tentou voltar à França; o navio fazia água e cinco homens preferiram retornar à colônia a enfrentar o mar.

Villegagnon exigiu que eles respondessem por escrito, em doze horas, a uma lista de perguntas sobre o que criam. Quatro deles — Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon e André La Fon — redigiram naquela noite um documento de dezessete artigos que ficou conhecido como Confissão de Fé da Guanabara (ou Confissão Fluminense). É o primeiro texto confessional protestante produzido nas Américas, e um dos primeiros documentos teológicos escritos no Brasil.

O texto afirma a Trindade, a divindade de Cristo, a autoridade da Escritura, a salvação pela graça e nega a transubstanciação — tudo com referências bíblicas na margem. Vale notar que não é obra de teólogos: Bourdel era o único com alguma formação; os outros eram artesãos. Eles sabiam o que criam e sabiam onde estava escrito.

Em fevereiro de 1558, Villegagnon mandou executar três deles: du Bourdel, Verneuil e Bourdon, estrangulados e lançados ao mar. La Fon, que era alfaiate, foi poupado por causa do ofício — a colônia precisava dele — e acabou se retratando. Os três são lembrados como os primeiros mártires protestantes do continente. A França Antártica foi destruída pelos portugueses em 1560, e com ela desapareceu, por quase um século, qualquer presença protestante no Brasil.

Fato 3: no Brasil Holandês, houve igreja reformada por 24 anos — e culto em tupi

A segunda entrada do protestantismo foi pelo Nordeste, e durou bem mais. Em 1630, a Companhia das Índias Ocidentais, holandesa, tomou Pernambuco. Entre 1637 e 1644 o governador foi o conde João Maurício de Nassau, e sob ele a presença holandesa se estendeu do Maranhão até Sergipe.

A religião oficial da colônia era a Igreja Reformada. Pastores vieram da Holanda, organizaram congregações no Recife e em outras vilas e chegaram a formar um sínodo — a estrutura eclesiástica reformada completa funcionando em território hoje brasileiro. Diferente do que aconteceria depois, essa não era uma igreja de estrangeiros fechada em si mesma: houve trabalho missionário entre os indígenas, com tradução de catecismo e de orações para o tupi, e pastores que aprenderam a língua para pregar nas aldeias.

Vale notar outro detalhe: a administração de Nassau praticou um grau de tolerância religiosa raro para o século XVII. Católicos puderam manter missas, e a comunidade judaica do Recife ergueu a primeira sinagoga das Américas. A tolerância tinha limites e motivações práticas — governar uma população majoritariamente católica exigia isso —, mas ela existiu.

Em 1654 os holandeses foram expulsos. Igrejas, pastores e livros foram embora com eles, e a Inquisição portuguesa cuidou do que ficou. De novo o protestantismo sumiu do mapa brasileiro, e dessa vez por mais de um século e meio.

Fato 4: em 1810, o culto protestante virou permitido — para estrangeiros, e sem cara de igreja

A terceira entrada foi diplomática. Quando a corte portuguesa se transferiu para o Rio de Janeiro em 1808, fugindo de Napoleão, ela veio escoltada pela marinha britânica e devendo favores. A conta chegou em 1810: Portugal assinou com a Grã-Bretanha o Tratado de Comércio e Navegação, e o artigo XII dele garantia aos súditos britânicos "liberdade de consciência" e o direito de cultuar em casas particulares ou em capelas.

Mas leia a letra pequena. As capelas não podiam ter aparência exterior de templo — nada de torre, sino ou qualquer sinal que denunciasse o que havia dentro. E era proibido fazer proselitismo, isto é, tentar converter brasileiros. O culto protestante passou a ser legal no Brasil, desde que fosse estrangeiro, discreto e mudo para fora. A primeira capela anglicana do Rio, de 1819, foi construída exatamente assim: um prédio que não parecia igreja.

A Constituição de 1824, já no Império, tornou essa regra lei para todos. O catolicismo era a religião oficial do Estado; as outras religiões eram permitidas "com seu culto doméstico ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo". Na prática isso significava uma lista de restrições civis para quem não era católico: não podia ser eleito deputado, casamento não católico não tinha validade legal até os anos 1860, e os cemitérios eram da Igreja — um protestante podia ter dificuldade até para ser enterrado.

É nesse arranjo — tolerância sem igualdade — que o protestantismo brasileiro vai crescer pelos próximos oitenta anos.

Fato 5: a Bíblia chegou antes das igrejas, nas mãos dos colportores

Aqui há uma correção a fazer em uma ideia comum. Não é exato dizer que "a leitura da Bíblia em português era proibida" no Brasil colonial e imperial. A Igreja Católica tinha sua própria tradução portuguesa, a de Antônio Pereira de Figueiredo, publicada entre 1778 e 1790, e ela circulava com aprovação eclesiástica. O que a Igreja proibia eram as traduções sem notas e sem aprovação — e isso incluía a Bíblia de João Ferreira de Almeida, protestante, cujo Novo Testamento havia sido impresso em Amsterdã em 1681 e a Bíblia completa em 1753, tudo fora do Brasil.

Na prática, porém, Bíblias de qualquer tipo eram raras, caras e concentradas no clero e nas elites. A pessoa comum não tinha uma em casa. Foi isso que os colportores vieram mudar.

Colportor é o vendedor ambulante de livros religiosos. A partir dos anos 1830, sociedades bíblicas da Inglaterra e dos Estados Unidos passaram a enviar homens que percorriam o interior a cavalo, de canoa, a pé, vendendo Bíblias e Novos Testamentos a preço baixo ou dando de graça. O metodista americano Daniel Parish Kidder chegou em 1837 e distribuiu Escrituras do Rio ao Pará, deixando um relato detalhado de viagem. O escocês Richard Holden trabalhou no Pará e na Bahia a partir de 1860, enfrentando confisco de livros e hostilidade do clero local.

Esses homens não plantaram igrejas. Deixaram livros. E muita igreja que nasceria décadas depois começou com alguém que havia comprado uma Bíblia de um estranho e passado anos lendo sozinho — exatamente o que o profeta Isaías descreve quando fala do que a palavra de Deus faz depois de solta:

Como a chuva e a neve

descem dos céus

e não voltam para eles

sem regar a terra

e a fazer brotar e florescer,

para que ela produza semente para o semeador e pão para o que come,

assim ocorre com a palavra que sai da minha boca:

ela não voltará para mim vazia,

mas fará o que desejo

e atingirá o propósito para o qual a enviei.(Isaías 55:10,11, NVI)

A imagem é de chuva: ela cai, some no chão e parece desperdiçada, mas a colheita vem meses depois. O colportor que vendia um Novo Testamento numa vila do sertão em 1840 não via resultado nenhum. O resultado estava a uma geração de distância.

Fato 6: a primeira igreja em português nasceu com um casal escocês, em 1858

Robert Reid Kalley era um médico escocês que já havia fundado uma igreja na Ilha da Madeira — e sido expulso de lá por perseguição. Em maio de 1855 desembarcou em Petrópolis com a esposa, Sarah Poulton Kalley. Em agosto daquele ano, Sarah reuniu cinco crianças numa sala para estudar a Bíblia: foi a primeira escola dominical do Brasil.

A igreja veio depois do trabalho de base. Em 11 de julho de 1858, no Rio de Janeiro, Kalley organizou a Igreja Evangélica Fluminense, a primeira igreja protestante do país voltada para brasileiros e com culto em português. A data de 1855 que muitos textos citam é a da chegada dos Kalley; a fundação da igreja é de 1858. A diferença de três anos importa, porque mostra o método: ensino em casa, visitas, pregação, e só então uma congregação.

Sarah Kalley fez algo que durou ainda mais. Em 1861 ela publicou Salmos e Hinos, o primeiro hinário evangélico em língua portuguesa, com traduções e composições próprias. Boa parte da igreja brasileira aprendeu a cantar por aquele livro.

Um ano depois dos Kalley fundarem a igreja, em 12 de agosto de 1859, chegou ao Rio o presbiteriano americano Ashbel Green Simonton, de 26 anos. Ele organizou a primeira igreja presbiteriana do Brasil em 1862, fundou o primeiro jornal evangélico do país, a Imprensa Evangélica, em 1864, e em 1865 participou da ordenação de José Manoel da Conceição, um ex-padre católico que se tornou o primeiro brasileiro ordenado pastor protestante. Simonton morreu de febre amarela em 1867, com 34 anos, mas o presbiterianismo que ele plantou se tornou a maior denominação protestante do Brasil no século XIX.

Tudo isso aconteceu dentro das regras do Império: culto em prédios sem forma de templo, com restrições civis e sem apoio oficial. A igreja cresceu assim mesmo. Nas décadas de 1870 e 1880 chegaram metodistas, batistas e episcopais, somando-se aos luteranos que já viviam em colônias de imigrantes alemães desde 1824.

Fato 7: a liberdade religiosa plena veio com a República, em 1890 e 1891

O Império caiu em 15 de novembro de 1889. Menos de dois meses depois, em 7 de janeiro de 1890, o governo provisório publicou o Decreto 119-A, redigido por Rui Barbosa: o Estado deixava de ter religião oficial, todas as confissões religiosas passavam a ter igual liberdade para se organizar e cultuar, e ficava proibido ao governo criar leis sobre religião ou sustentar qualquer igreja. No mesmo ano, outro decreto instituiu o casamento civil como o único com validade legal, e os cemitérios passaram para os municípios.

A Constituição de 24 de fevereiro de 1891 consolidou tudo isso. O artigo 72 declarava que todos os indivíduos e confissões religiosas podiam exercer pública e livremente seu culto, associando-se para esse fim e adquirindo bens. Pela primeira vez, uma igreja protestante no Brasil podia ter torre, sino, placa na porta e pregar em praça pública. O arranjo de 1810 — tolerado, estrangeiro e invisível — tinha acabado.

Vale notar que a separação entre Igreja e Estado não foi uma vitória protestante. Quem a fez foram republicanos liberais e positivistas, por razões próprias, e a Igreja Católica reagiu com dureza. Mas foram as igrejas evangélicas que mais ganharam com ela: a partir de 1891 o crescimento se acelerou, e quando o pentecostalismo chegou, em 1910 e 1911, encontrou um país onde já era legal abrir uma igreja na esquina.

O que esses sete fatos têm em comum

Olha para a sequência: três entradas que fracassaram ou foram contidas — 1557, 1630, 1810 — antes de uma que ficou. Em cada uma delas a Escritura veio na frente da estrutura. Os huguenotes cantaram um salmo antes de ter capela. Os holandeses traduziram catecismo para o tupi antes de o Recife ter sínodo. Os colportores venderam Bíblias por décadas antes de existir igreja para receber quem as lia.

Isaías 55 descreve exatamente esse ritmo: a palavra sai, parece sumir, e faz o que foi enviada para fazer no tempo dela, não no nosso. Leia Isaías 55 completo — o capítulo começa com um convite a quem tem sede e termina com a promessa de que essa palavra não volta vazia.

Quem foi o primeiro pastor protestante do Brasil?

Os primeiros pastores protestantes a atuar em solo brasileiro foram os franceses Pierre Richier e Guillaume Chartier, enviados por Genebra à França Antártica em 1557. O primeiro brasileiro ordenado pastor protestante foi José Manoel da Conceição, ex-padre católico, ordenado pela Igreja Presbiteriana em 1865.

Qual foi a primeira igreja evangélica do Brasil?

A Igreja Evangélica Fluminense, fundada por Robert Reid Kalley no Rio de Janeiro em 11 de julho de 1858, é considerada a primeira igreja protestante em língua portuguesa e voltada para brasileiros. Antes dela já existiam capelas anglicanas para britânicos (a partir de 1819) e comunidades luteranas de imigrantes alemães (a partir de 1824), mas eram igrejas de estrangeiros, em língua estrangeira.

Quando a Bíblia foi traduzida para o português?

A primeira tradução completa feita por um protestante foi a de João Ferreira de Almeida: o Novo Testamento saiu em 1681, em Amsterdã, e a Bíblia inteira em 1753. A primeira tradução católica completa em português, de Antônio Pereira de Figueiredo, foi publicada entre 1778 e 1790. A tradução de Almeida, revisada muitas vezes, é a base das versões ACF, ARC e NAA usadas hoje.

Por que o protestantismo demorou tanto para se estabelecer no Brasil?

Porque o catolicismo era a religião oficial de Portugal e depois do Império brasileiro, e a Inquisição e as leis coloniais impediam qualquer culto não católico. As duas primeiras presenças protestantes (1557 e 1630) vieram com invasões estrangeiras e acabaram com a expulsão dos invasores. Só em 1810 o culto protestante passou a ser tolerado, e mesmo assim restrito a estrangeiros até a Constituição de 1824, que permitiu culto não católico em prédios sem aparência de templo.

Quando as igrejas pentecostais chegaram ao Brasil?

A Congregação Cristã no Brasil foi fundada em São Paulo em 1910 pelo italiano Luigi Francescon, e a Assembleia de Deus nasceu em Belém do Pará em 1911, a partir do trabalho dos suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren. Ambas surgiram cerca de vinte anos depois da liberdade religiosa garantida pela Constituição de 1891.

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