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O que Jesus fala sobre as crianças na Bíblia

Por Bíblia Online  - 
Homem de cabelos longos e barba, sentado ao ar livre

O que Jesus falou sobre as crianças

Jesus falou de crianças em pelo menos quatro momentos registrados nos Evangelhos, e disse sempre a mesma coisa de ângulos diferentes: elas têm lugar no Reino de Deus, e são os adultos que precisam aprender com elas — não o contrário. Ele mandou deixá-las chegar perto, tomou-as nos braços e abençoou, afirmou que quem recebe uma criança recebe a ele mesmo e fez um aviso duríssimo contra quem faz uma delas tropeçar.

A frase mais conhecida está em Mateus 19:14:

Jesus, porém, disse: Deixai os pequeninos e não os estorveis de vir a mim, porque dos tais é o Reino dos céus.

Vale notar o final da frase. Na Almeida Revista e Corrigida lê-se "dos tais é o Reino dos céus"; a NVI traduz "o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas". As duas estão dizendo a mesma coisa: Jesus não afirma só que criança é bem-vinda. Ele afirma que o Reino é de gente assim. E aí a frase deixa de ser sobre os pequenos e passa a ser sobre qualquer pessoa que queira entrar.

A cena: os discípulos barrando, Jesus chamando

Homem sentado numa pedra abençoa uma criança, enquanto adultos com crianças o rodeiam.

Mateus 19:13 conta que as pessoas traziam crianças para Jesus impor as mãos e orar por elas. Os discípulos repreenderam quem trazia. Dá para entender o raciocínio deles: Jesus acabara de sair de um debate pesado com os fariseus sobre divórcio, e criança, naquela cabeça, era interrupção.

Marcos registra um detalhe que Mateus deixa de fora: Jesus se indignou. É a única vez nos Evangelhos em que esse verbo é usado para a reação dele aos próprios discípulos. E Lucas acrescenta outro detalhe — a palavra grega que ele usa, brephē, quer dizer bebês de colo. Não eram meninos que já sabiam ouvir um ensino; eram crianças que nem entendiam quem estava ali.

Jesus não só falou. Marcos 10:16 diz o que ele fez:

E, tomando-as nos seus braços e impondo-lhes as mãos, as abençoou.(Marcos 10:16)

Olha o peso disso no mundo antigo. Criança não tinha voz, não tinha direitos, não era ouvida em assembleia nenhuma. No judaísmo era considerada bênção, sim, mas uma bênção para os pais — não alguém de quem se esperasse ensinar algo. Jesus pegou a pessoa de menor status possível, colocou no colo e disse: o Reino é destes.

As três versões da cena estão em Mateus 19, Marcos 10 e Lucas 18.

Receber o Reino como uma criança

Na mesma cena, Jesus vira a frase ao contrário. Já não é "o Reino é das crianças", é "ninguém entra sem ser como elas":

Em verdade vos digo que qualquer que não receber o Reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele.(Marcos 10:15)

Ele já tinha dito isso antes, em outra situação. Em Mateus 18, os discípulos chegam perguntando quem seria o maior no Reino. Jesus chama uma criança, coloca no meio deles e responde assim:

e disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus.(Mateus 18:3)

O verbo traduzido como "converter" é strephō — dar meia-volta, virar o corpo. Os discípulos estavam andando numa direção (quem é o maior?) e Jesus manda inverter o sentido.

Agora, o que ele quer dizer com "ser como criança"? Não é inocência. Jesus conhecia criança o bastante para saber que ela não é moralmente perfeita. Também não é ingenuidade ou falta de juízo — ele mesmo pede prudência dos discípulos em outras passagens.

O ponto é outro, e o versículo seguinte entrega: "quem se humilhar como esta criança" (Mateus 18:4). Criança não tem currículo. Não tem como pagar pelo cuidado que recebe nem como fingir que não precisa dele. Ela estende a mão e recebe.

É aqui que a leitura evangélica histórica se apoia: ninguém entra no Reino por mérito. Entrar é reconhecer que não tem o que oferecer e receber de graça. Outras tradições cristãs destacam na mesma passagem a confiança ou a simplicidade da criança — leituras que não brigam com essa, só mudam o foco.

Quem recebe uma criança recebe Jesus

Em Marcos 9:36-37, na mesma conversa sobre quem é o maior, Jesus toma uma criança nos braços e diz uma coisa que muda o valor de qualquer gesto feito a um pequeno:

Qualquer que receber uma destas crianças em meu nome a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber recebe não a mim, mas ao que me enviou.(Marcos 9:37)

"Em meu nome" significa por causa dele, com ele em vista. Ou seja: cuidar de uma criança não é a tarefa menor que sobra para quem não ficou com a tarefa importante. Jesus põe a si mesmo — e o Pai que o enviou — do outro lado desse cuidado.

Isso aqui é importante para quem trabalha com criança na igreja, cria filhos ou ensina. Pelo que Jesus diz, não existe ministério "pequeno" com os pequenos.

O aviso mais duro: fazer um pequenino tropeçar

Depois de colocar a criança no meio e falar de recebê-la, Jesus muda o tom:

Mas qualquer que escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar.(Mateus 18:6)

A pedra de moinho aqui é a grande, a que o jumento girava — não a de mão. E ser afogado no mar era, para um judeu, uma das mortes mais horríveis que se podia imaginar. Jesus escolheu a imagem mais forte que tinha à mão. "Fazer tropeçar" (skandalizō) é levar alguém a pecar ou a cair da fé.

Quem são os "pequeninos"? Repare que o versículo diz "pequeninos que creem em mim". A criança está no meio da roda, mas o círculo se alarga: entram também os discípulos humildes, os que não têm status. A leitura mais comum entre intérpretes evangélicos é que as duas coisas estão em vista — a criança literal é o modelo e está incluída, e o aviso se estende a todo crente simples. Lucas registra a mesma advertência em Lucas 17.

Alguns versículos depois, Jesus volta ao assunto com uma frase que gerou muita tradição:

Vede, não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre veem a face de meu Pai que está nos céus.(Mateus 18:10)

"Desprezar" é olhar de cima, tratar como pouca coisa. Daqui veio a ideia popular de que cada criança tem um anjo da guarda. O texto não desenvolve isso: ele diz que os anjos delas têm acesso direto à face do Pai. O ponto de Jesus não é descrever como funciona a proteção angelical — é dizer que o Céu presta atenção em quem a terra ignora.

As crianças que louvaram no templo

Tem ainda um momento que costuma passar despercebido. Em Mateus 21, depois da entrada em Jerusalém, crianças ficam gritando "Hosana ao Filho de Davi" dentro do templo. Os sacerdotes se irritam e cobram Jesus. Ele responde citando o Salmo 8: da boca de crianças e bebês de peito Deus preparou louvor.

É coerente com tudo o resto. Os especialistas em religião não enxergaram quem Jesus era; as crianças, sim. E ele não as mandou calar.

Para ler a cena inteira

Tudo o que Jesus falou sobre crianças cabe numa imagem: discípulos empurrando, Jesus chamando, bebês no colo, mãos sobre a cabeça. O resto — receber o Reino como criança, receber a criança como se fosse ele, não fazer tropeçar — é o desdobramento desse gesto.

Leia a cena completa em Mateus 19:13-15 e Marcos 10:13-16, e a conversa sobre quem é o maior em Mateus 18:1-10.

Jesus abençoou crianças?

Sim. Marcos 10:16 diz que ele as tomou nos braços, impôs as mãos sobre elas e as abençoou. Mateus 19:13 explica que era isso que os pais pediam — que ele impusesse as mãos e orasse. Jesus fez exatamente o que foi pedido, depois de repreender os discípulos que tentaram impedir.

O que significa "dos tais é o Reino dos céus"?

Significa que o Reino pertence a pessoas que são como as crianças, e não só às crianças em si. "Dos tais" (Almeida Revista e Corrigida) ou "dos que são semelhantes a elas" (NVI) aponta para um tipo de pessoa: quem chega sem mérito para apresentar e recebe o que Deus dá. Por isso Jesus completa, em Marcos 10:15, que quem não receber o Reino assim não entra nele.

Quem são os "pequeninos" em Mateus 18?

A criança que Jesus colocou no meio dos discípulos é o primeiro referente, mas o versículo 6 diz "pequeninos que creem em mim", o que alarga o grupo para os discípulos humildes em geral. A leitura mais comum entre intérpretes evangélicos é que os dois sentidos estão presentes: a criança literal está incluída e serve de modelo, e o aviso vale para todo crente simples que alguém possa levar a cair.

Jesus disse que cada criança tem um anjo da guarda?

Não com essas palavras. Mateus 18:10 diz que "os seus anjos" veem sempre a face do Pai, e foi daí que a tradição cristã tirou a ideia do anjo da guarda. O texto não explica como essa proteção funciona; o que ele afirma é que as crianças têm valor diante de Deus e que desprezá-las é ignorar alguém de quem o Céu cuida.

Crianças que morrem são salvas, segundo Jesus?

Jesus não trata disso diretamente. O que ele diz é que o Reino é das crianças e de quem é como elas (Mateus 19:14), e a maioria das tradições evangélicas lê nisso, junto com a esperança de Davi em 2 Samuel 12:23, um fundamento para confiar que Deus acolhe as crianças que morrem. É uma conclusão por inferência, não uma afirmação explícita do texto — por isso cristãos sinceros tratam o tema com confiança na graça de Deus, mas sem dogmatismo.

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