Templo de Jerusalém no tempo de Jesus: estrutura e história
O que era o templo de Jerusalém no tempo de Jesus
O templo que Jesus conheceu era o Segundo Templo — a casa reconstruída depois do exílio na Babilônia — depois de uma reforma tão radical feita por Herodes, o Grande, que muita gente o chama de "templo de Herodes". Não era um prédio só. Era um complexo murado no alto do Monte Moriá, uma sequência de pátios encaixados uns nos outros, com o santuário propriamente dito lá no meio.
Vale notar que o grego do Novo Testamento usa duas palavras para isso. Hieron é o complexo inteiro, com pátios e pórticos — é onde Jesus ensina e expulsa os vendedores. Naos é só o edifício central, a casa com o Santo Lugar e o Santo dos Santos. Quando Jesus diz "destruí este templo", em João 2:19, a palavra é naos; os judeus respondem falando da obra de Herodes:
Disseram, pois, os judeus: Em quarenta e seis anos, foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias?(João 2:20)
Esse "quarenta e seis anos" é a própria Bíblia confirmando o que o historiador Josefo conta: a obra de Herodes começou por volta de 20 a.C. e, na época de Jesus, ainda não tinha acabado.
De Salomão a Herodes: como o templo chegou ao século 1
A história tem três etapas, e a Bíblia conta as duas primeiras. Salomão construiu o primeiro templo no Monte Moriá, em Jerusalém (2 Crônicas 3:1); a descrição da obra está em 1 Reis 6. Os babilônios o queimaram em 586 a.C. (2 Reis 25:9).
Quando os exilados voltaram, Zorobabel liderou a reconstrução, terminada por volta de 516 a.C. (Esdras 6:15). Era uma casa modesta. O profeta Ageu pergunta a quem tinha visto o templo de Salomão se aquele novo não parecia "como nada" aos olhos deles (Ageu 2:3).
A terceira etapa não está na Bíblia — vem de Josefo e da arqueologia. Herodes, rei sob proteção de Roma, decidiu transformar aquele templo modesto numa das maiores obras do mundo antigo. Ampliou a plataforma do monte com muralhas de contenção feitas de blocos enormes; a maior pedra ainda hoje no lugar é estimada em mais de quinhentas toneladas. Segundo Josefo, os acabamentos só terminaram em 64 d.C. — seis anos antes de tudo vir abaixo.
A estrutura: pátios em círculos de santidade
A ideia por trás do desenho é simples: quanto mais perto do centro, menos gente podia entrar. Cada pátio era um degrau a mais de santidade. Boa parte dos detalhes que seguem — medidas, nomes dos pátios, regras de acesso — vem de Josefo e da Mishná (tratado Middot), escritos judaicos do século 1 e 2. A Bíblia não descreve o templo de Herodes; ela mostra o que acontecia nele.
O átrio dos gentios
A grande esplanada externa, cercada de pórticos com colunas. Era a única parte do monte onde um não judeu podia pisar. Ali ficavam os vendedores de animais para sacrifício e os cambistas que trocavam moeda romana pela aceita no templo — o comércio que Jesus derrubou em Mateus 21:12-13. Num desses pórticos, o chamado Pórtico de Salomão, Jesus caminhava e ensinava (João 10:23), e a primeira igreja depois se reunia ali (Atos 5:12).
Josefo conta que uma grade de pedra separava essa esplanada dos pátios internos, com avisos em grego e latim proibindo a entrada de estrangeiros sob pena de morte. Arqueólogos encontraram uma dessas placas em grego. A Bíblia não descreve a grade, mas mostra o peso dessa regra: Paulo quase foi morto pela multidão por uma acusação falsa de ter levado gregos para dentro.
clamando: Varões israelitas, acudi! Este é o homem que por todas as partes ensina a todos, contra o povo, e contra a lei, e contra este lugar; e, demais disto, introduziu também no templo os gregos e profanou este santo lugar.(Atos 21:28)
O átrio das mulheres
Passando a grade, chegava-se ao primeiro pátio só para judeus. Apesar do nome, homens também entravam; era o ponto mais interno que as mulheres podiam alcançar. A Mishná registra treze caixas de ofertas em forma de trombeta no templo, e a tradição as coloca nesse pátio. É aqui que a Bíblia nos leva quando Jesus observa quem põe dinheiro no "gazofilácio", a arca do tesouro:
E, estando Jesus assentado defronte da arca do tesouro, observava a maneira como a multidão lançava o dinheiro na arca do tesouro; e muitos ricos depositavam muito.(Marcos 12:41)
A viúva das duas moedinhas, em Lucas 21:1-4, passou por este chão.
O átrio dos israelitas e o átrio dos sacerdotes
Alguns degraus acima ficava o pátio dos homens judeus ritualmente puros, de onde se acompanhava o culto. Logo à frente, sem muro alto entre eles, o pátio dos sacerdotes — só para os descendentes de Arão.
Ali ficava o grande altar de pedra, onde o fogo não se apagava, e a grande bacia de bronze para as lavagens rituais. O coração do culto era o sacrifício contínuo ordenado na Lei: um cordeiro de manhã, outro ao entardecer, com farinha, azeite e vinho (Êxodo 29:38-39). Todo dia. Durante séculos.
O Santo Lugar e o Santo dos Santos
O edifício central tinha duas salas. A primeira, o Santo Lugar, era onde os sacerdotes entravam em turnos para cuidar do candelabro de ouro, trocar os pães da proposição e queimar incenso. Foi fazendo exatamente isso que Zacarias, pai de João Batista, viu o anjo (Lucas 1:9).
Atrás de um véu espesso ficava o Santo dos Santos. Ninguém entrava — exceto o sumo sacerdote, um dia por ano, no Dia da Expiação, levando sangue pelos pecados do povo (Levítico 16). A carta aos Hebreus resume essa regra ao descrever o tabernáculo, cujo desenho o templo repetia:
mas, no segundo, só o sumo sacerdote, uma vez no ano, não sem sangue, que oferecia por si mesmo e pelas culpas do povo;(Hebreus 9:7)
Isso aqui é importante: no tempo de Jesus, a sala estava vazia. A Arca da Aliança não aparece mais depois do exílio, e a Bíblia não conta o que aconteceu com ela. Quem diz que o Santo dos Santos de Herodes não tinha nada dentro é Josefo. O véu que fechava essa sala é o mesmo que os Evangelhos dizem ter se rasgado de alto a baixo na hora da morte de Jesus (Mateus 27:51) — e Hebreus 10:19-20 lê esse véu como figura do corpo de Cristo, que abriu o caminho até Deus. Essa é a leitura cristã tradicional, não algo que Mateus explique.
Quem mandava no templo
No topo estava o sumo sacerdote — Caifás, nos anos do ministério de Jesus, com o sogro Anás ainda muito influente (Lucas 3:2). Era ele quem presidia o Sinédrio, o conselho que julgou Jesus (Mateus 26:57).
A administração estava nas mãos dos saduceus, a aristocracia sacerdotal. Atos diz isso com todas as letras: o sumo sacerdote "e todos os que estavam com ele" eram da seita dos saduceus (Atos 5:17). Eles tinham um acordo tácito com Roma: ordem em troca de controle do culto. Isso explica por que um pregador que atraía multidões no templo os assustava tanto.
Três vezes por ano — Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos — a Lei chamava todo homem israelita a Jerusalém (Deuteronômio 16:16). A cidade inchava com peregrinos vindos de todo o império; a lista de regiões em Atos 2:5-11 dá uma ideia de quem estava lá num Pentecostes.
Jesus no templo
Os Evangelhos passam pelo templo do começo ao fim da vida de Jesus:
Com quarenta dias, é levado para a apresentação; Simeão e Ana o reconhecem (Lucas 2:22-38).
Aos doze anos, os pais o encontram sentado entre os mestres da Lei (Lucas 2:46).
Na última semana, ensina ali todos os dias (Lucas 19:47) e expulsa os vendedores do átrio externo (Mateus 21:12-13).
Depois da ressurreição, os discípulos continuam frequentando o templo para orar (Atos 3:1).
Olha o que isso mostra: Jesus não tratou o templo como inimigo. Ele o chamou de "casa de meu Pai". A crítica dele foi ao que faziam dentro — e ao que o templo não podia mais fazer.
A destruição no ano 70 d.C. e o que sobrou
Saindo do templo pela última vez, os discípulos ficam impressionados com os prédios — em Marcos 13:1, um deles exclama "que pedras, que edifícios!". A resposta de Jesus é o versículo que resume a história deste lugar:
E, quando Jesus ia saindo do templo, aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo. Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada.
Quarenta anos depois, aconteceu. Em 70 d.C., no fim da revolta judaica contra Roma, as legiões de Tito tomaram Jerusalém e o templo foi incendiado e desmontado. Quem conta isso é Josefo, que estava lá. Com o templo acabou o sacrifício diário, e com ele a função do sacerdócio levítico. O judaísmo que sobreviveu se reorganizou em torno da sinagoga, não do altar.
E o que ficou de pé? O Muro das Lamentações, onde judeus oram até hoje, não é parede do templo: é um trecho da muralha de contenção que Herodes construiu para sustentar a plataforma — das pedras que os discípulos admiravam. No alto, onde ficava o santuário, está desde o século 7 o Domo da Rocha, santuário islâmico. Do edifício em si, não sobrou pedra sobre pedra.
É exatamente o que Jesus disse diante daquelas muralhas. Para ver o aviso no contexto da conversa com os discípulos, leia Mateus 24 inteiro — e, para o lamento de Jesus sobre a cidade dias antes, Lucas 19:41-44.
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