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Templo de Jerusalém no tempo de Jesus: estrutura e história

Multidão em roupas antigas reunida diante de um grande templo de pedra

O templo que Jesus conheceu

No tempo de Jesus, "o templo" era, na prática, duas coisas. Uma era o edifício em si: uma construção alta e estreita, de pedra branca com acabamentos em ouro, onde ficavam o Santo Lugar e o Santo dos Santos, e onde só sacerdote entrava. A outra era a esplanada enorme em volta dele — cerca de 14 hectares de pátios, pórticos e escadarias, cheia de peregrinos, vendedores de animais, cambistas e mestres da lei ensinando sentados. Esse conjunto era o templo de Herodes, que começou a ser reformado por volta de 20 a.C. sobre o lugar do templo de Salomão e só recebeu os últimos acabamentos em 64 d.C., seis anos antes de ser arrasado pelos romanos.

Quase tudo que os Evangelhos contam sobre Jesus "no templo" aconteceu na parte de fora, nos pátios. Mas o que dava sentido a toda aquela estrutura era um cômodo escuro e vazio lá no centro, que nem Jesus nem os discípulos jamais viram por dentro.

Uma conversa em João 2 junta as duas coisas — a história do edifício e o que ele significava — em três versículos:

Jesus lhes respondeu:

— Destruam este santuário, e em três dias eu o levantarei.

Os judeus responderam:

— Este santuário foi edificado em quarenta e seis anos, e você quer levantá-lo em três dias?

Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo.(João 2:19-21, NAA)

A NAA traduz "santuário" onde a maioria das versões escreve "templo", e isso não é capricho. É a diferença entre duas palavras gregas que o português costuma apagar.

Hieron e naos: duas palavras, um "templo"

O Novo Testamento usa dois termos para o que chamamos de templo. Hieron é o complexo inteiro: a esplanada, os pátios, os pórticos, as portas. Naos é só o edifício sagrado — o santuário propriamente dito, com o Santo Lugar e o Santo dos Santos.

Isso muda a leitura de várias cenas. Quando Jesus expulsa os vendedores "do templo" em Mateus 21:12-13, a palavra é hieron: ele estava no pátio externo, ao ar livre, onde o comércio funcionava. Quando o pai de João Batista entra "no santuário do Senhor" para queimar incenso em Lucas 1:9-11, a palavra é naos: Zacarias estava dentro do edifício, sozinho, diante do altar de incenso.

E quando Jesus diz "destruam este santuário", é naos. Os judeus entenderam que ele falava do edifício que Herodes tinha reconstruído com um custo absurdo. João explica que ele falava do próprio corpo — e o resto deste artigo vai mostrar por que essa troca faz tanto sentido.

Três templos no mesmo monte

Rigorosamente, Jerusalém teve dois templos; o de Herodes foi uma reforma radical do segundo. Mas a história se conta melhor em três fases.

O templo de Salomão (c. 960–586 a.C.). Davi quis construir uma casa para Deus e não pôde: a palavra que recebeu está em 1 Crônicas 22:8 — ele havia derramado sangue demais. Coube ao filho. 2 Crônicas 3:1 situa a obra no monte Moriá, o mesmo nome do lugar onde Abraão quase sacrificou Isaque. A descrição detalhada está em 1 Reis 6: cerca de 27 metros de comprimento, 9 de largura e 13 de altura, com a arca da aliança no fundo. Esse templo durou quase quatro séculos, até Nabucodonosor queimá-lo em 586 a.C. (2 Reis 25:9). A arca desapareceu nessa época e nunca mais foi encontrada.

O templo de Zorobabel (516 a.C.). Setenta anos depois, os exilados que voltaram da Babilônia reconstruíram o santuário sob a liderança de Zorobabel. Esdras 6:15 data a conclusão no sexto ano do rei Dario, o que dá 516 ou 515 a.C. Era um prédio modesto. O profeta Ageu registra a reação dos velhos que ainda lembravam o templo anterior e choravam ao comparar (Ageu 2:3). Esse templo ficou de pé, com reparos e profanações, por quinhentos anos.

O templo de Herodes (c. 20 a.C.–70 d.C.). Herodes o Grande, rei da Judeia sob Roma, era um construtor obsessivo — e precisava de legitimidade diante de um povo que o via como meio estrangeiro. Segundo o historiador judeu Flávio Josefo, no décimo oitavo ano de seu reinado, por volta de 20 a.C., ele anunciou que refaria o templo em escala monumental. Como o culto não podia parar, treinou sacerdotes como pedreiros para a parte interna. O edifício central ficou pronto em cerca de um ano e meio; os pátios externos, em oito anos. Mas o conjunto — pórticos, portas, revestimentos — seguiu em obras por décadas. Josefo diz que os trabalhos só terminaram por volta de 63–64 d.C.

É por isso que, em João 2:20, os judeus falam em "quarenta e seis anos". A obra ainda não tinha acabado; eles estavam contando desde o início. A conta coloca a cena por volta de 27 ou 28 d.C., no começo do ministério de Jesus.

O que Herodes fez de mais impressionante não foi o prédio, e sim o terreno. O topo do monte não cabia o que ele queria, então ele construiu muros de contenção gigantescos e aterrou a encosta até dobrar a área da esplanada. As pedras da base chegam a dezenas de toneladas; algumas passam de dez metros de comprimento. O Muro das Lamentações, que existe até hoje, é um trecho desse muro de contenção — não do templo em si.

Os pátios, de fora para dentro

A lógica da esplanada era uma só: quanto mais para dentro, mais restrito o acesso e mais alto o chão. Cada pátio ficava alguns degraus acima do anterior, e cada passagem excluía alguém. A pessoa que subia em direção ao santuário sentia fisicamente que estava se aproximando de um lugar onde não podia entrar.

Peregrinos com cestos e ovelhas sobem uma escadaria de pedra ao lado de colunas antigas.

O Átrio dos Gentios

Era a esplanada aberta, e qualquer pessoa podia entrar — judeu, romano, grego, mulher, criança, estrangeiro de passagem. Em volta dela corriam pórticos cobertos, com colunas de mais de dez metros. O do lado leste era chamado Pórtico de Salomão, porque a tradição dizia que ali sobrava um trecho da plataforma antiga. Jesus ensinou nele em pleno inverno, durante a Festa da Dedicação (João 10:23), e a primeira igreja se reunia ali depois da ressurreição (Atos 5:12).

No lado sul ficava o Pórtico Real, o maior de todos. É provavelmente onde funcionava o comércio: venda de animais aprovados para o sacrifício e troca de moedas, já que o imposto do templo tinha que ser pago em moeda de Tiro, sem imagem de imperador. Foi aqui que Jesus virou as mesas.

Separando esse pátio dos pátios internos havia uma balaustrada de pedra de cerca de 1,3 metro, com placas em grego e latim avisando que nenhum estrangeiro podia passar dali, sob pena de morte. Josefo descreve essas placas, e uma delas foi encontrada em Jerusalém em 1871. Guarde esse detalhe: ele explica a cena de Paulo em Atos 21.

O Átrio das Mulheres

Passada a balaustrada e subindo mais degraus, entrava-se no pátio onde o povo judeu em geral chegava — homens e mulheres. O nome não quer dizer que era só para mulheres; quer dizer que era até onde as mulheres podiam ir. Era um quadrado de uns 60 metros de lado, com câmaras nos cantos para funções específicas: a lenha dos sacrifícios, o azeite, os nazireus cumprindo voto, a inspeção de leprosos curados.

Junto às paredes ficavam os cofres das ofertas, que a Mishná descreve como treze caixas com bocais em forma de trombeta — o "gazofilácio" das traduções antigas. É diante desses cofres que Jesus se senta para observar quem dava o quê, em Marcos 12:41 e Lucas 21:1-4. A viúva que jogou duas moedinhas estava aqui. Simeão e Ana, que receberam o bebê Jesus no colo (Lucas 2:22-38), muito provavelmente também.

O Átrio dos Israelitas

Quinze degraus semicirculares levavam à Porta de Nicanor, a mais bonita do complexo, e dali a um pátio estreito reservado aos homens judeus em estado de pureza ritual. Era basicamente uma faixa de onde se assistia ao sacrifício. Quem trazia um animal o entregava ali aos sacerdotes e ficava olhando.

O Átrio dos Sacerdotes

Logo em frente, sem parede, só com uma mureta baixa de separação, ficava o pátio onde os sacerdotes trabalhavam. No meio dele, o grande altar de pedra não lavrada, onde o fogo queimava dia e noite. Ao lado, o tanque de bronze para as lavagens, as mesas e os ganchos de abate, as fileiras de levitas cantando os salmos nos horários da oferta. Era barulhento, cheirava a sangue e a carne queimada, e funcionava sem parar.

O Santo Lugar e o Santo dos Santos

Erguendo-se ao fundo desse pátio estava o edifício que tudo isso rodeava: o naos. A fachada tinha uns 50 metros de altura e de largura, revestida de ouro, e Josefo diz que ao sol de manhã não se conseguia olhar para ela. Por dentro, porém, o prédio era pequeno, e o acesso era mais restrito do que em qualquer pátio.

Atrás de um grande véu bordado ficava o Santo Lugar: um salão com o candelabro de sete braços, a mesa dos pães e o altar de incenso. Só sacerdotes de serviço entravam, de manhã e à tarde, para cuidar das lâmpadas e queimar o incenso. Foi aí que Zacarias viu o anjo.

No fundo do salão, um segundo véu separava o Santo dos Santos. Era um cubo de cerca de dez metros, sem janela, completamente escuro. No templo de Salomão, ali estava a arca da aliança. No templo de Herodes, não havia nada. Josefo é direto: dentro não havia coisa alguma. Quando o general romano Pompeu forçou a entrada em 63 a.C., saiu dizendo que o lugar estava vazio. A tradição judaica fala apenas de uma pedra, a "pedra do fundamento", onde o sumo sacerdote apoiava o incensário.

Nesse cômodo, uma pessoa entrava uma vez por ano. A carta aos Hebreus resume a regra:

No entanto, somente o sumo sacerdote entrava no Lugar Santíssimo, apenas uma vez por ano, e nunca sem apresentar o sangue do sacrifício, que ele oferecia por si mesmo e pelos pecados que o povo havia cometido por ignorância.(Hebreus 9:7, NVI)

Olha o contraste. A esplanada de Herodes recebia centenas de milhares de pessoas na Páscoa. O lugar para onde tudo apontava recebia uma pessoa, um dia por ano, por alguns minutos, carregando sangue. Toda a arquitetura dizia: Deus está aqui, e você não pode chegar perto.

O que aconteceu ali nos Evangelhos e em Atos

Juntando os pátios com as cenas, a geografia dos textos fica nítida.

Jesus foi apresentado ao Senhor aos quarenta dias de vida, no Átrio das Mulheres. Aos doze anos, ficou três dias conversando com os mestres, provavelmente nos pórticos (Lucas 2:46). Adulto, expulsou os vendedores no Átrio dos Gentios — e a acusação que ele faz em Mateus 21:13, de transformar casa de oração em "covil de ladrões", fica mais forte quando se lembra que aquele pátio era justamente a única parte do templo aberta a todos os povos.

Ele ensinou no Pórtico de Salomão, observou os cofres das ofertas e, segundo Lucas, passava os dias do final da sua vida ensinando no templo. Pedro e João curaram um paralítico na Porta Formosa, na entrada dos pátios internos (Atos 3:1-10). A igreja de Jerusalém continuou frequentando o lugar por décadas.

E foi ali que Paulo quase morreu. Em Atos 21:27-32, judeus vindos da Ásia o reconhecem no templo e levantam a multidão com esta acusação:

gritando:

— Israelitas, ajudem-nos! Este é o homem que, em toda parte, ensina a todos contra o nosso povo, contra a nossa lei e contra este lugar. Além disso, ele introduziu gregos no templo e profanou este lugar santo.(Atos 21:28, NVI)

"Introduziu gregos no templo" quer dizer: passou com um gentio para dentro da balaustrada. Tinham visto Paulo pela cidade com Trófimo, um cristão de Éfeso, e concluíram que ele o levara além do limite. O versículo 29 diz que a conclusão era falsa, mas o pânico faz sentido: para aquele povo, a pureza do santuário era questão de vida ou morte, literalmente. Paulo só não foi linchado porque a fortaleza Antônia, quartel romano, ficava colada ao canto noroeste da esplanada, e os soldados desceram a tempo.

"Não ficará pedra sobre pedra"

Pouco antes da sua morte, Jesus sai do templo com os discípulos, e eles param para admirar a construção. Dá para entender: aquelas pedras eram a maior obra que qualquer um deles tinha visto na vida.

Jesus saiu do templo e, enquanto caminhava, os seus discípulos aproximaram-se dele para lhe mostrar as construções do templo.

— Vocês estão vendo tudo isto? — perguntou. — Em verdade lhes digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada.(Mateus 24:1,2, NVI)

Quarenta anos depois, em 70 d.C., o exército de Tito cercou Jerusalém durante a revolta judaica. No fim do verão, o templo pegou fogo e foi demolido até a base. Josefo, que estava no acampamento romano, conta que Tito tentou poupar o edifício e não conseguiu conter os soldados; outros historiadores duvidam. O que ninguém discute é o resultado: o naos desapareceu por completo, e o que ficou de pé foram só trechos do muro de contenção da esplanada. O Arco de Tito, em Roma, ainda mostra legionários carregando o candelabro de sete braços na parada da vitória.

Nunca mais foi reconstruído. Para o judaísmo, isso mudou tudo: sem templo, sem sacrifício, a fé se reorganizou em volta da sinagoga e do estudo. Para a igreja, que já tinha se espalhado pelo império, confirmou algo que Jesus vinha dizendo desde o começo.

O que o templo significa para quem segue Jesus

Volte a João 2:19-21. Jesus olhou para o edifício que todos achavam que era a casa de Deus e disse que a verdadeira casa era o seu corpo. Isso não era desprezo pelo templo; era a reivindicação de ser o que o templo apontava. Lá em Êxodo 25:8, quando Deus mandou construir o primeiro santuário, o motivo foi um só: "para que eu possa habitar no meio deles". O templo era o jeito de Deus morar perto do povo. Jesus é Deus morando no meio do povo, de carne.

E a hora da morte dele toca exatamente no cômodo que ninguém via:

Naquele momento, o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo. A terra tremeu, e as rochas se fenderam.(Mateus 27:51, NVI)

A Bíblia relata o fato — o véu rasgou — e Hebreus faz a leitura: a carta chama o véu de "carne" de Cristo e diz que agora temos acesso ao Santo dos Santos pelo sangue dele (Hebreus 10:19-20). Aquela arquitetura de pátios cada vez mais fechados, que dizia "você não pode chegar perto", foi aberta de alto a baixo. Essa é a leitura da tradição cristã desde o primeiro século, e é a que a teologia evangélica histórica sustenta.

Daí Paulo pode dizer a uma igreja de gente comum, em Corinto, que eles são templo de Deus porque o Espírito habita neles (1 Coríntios 3:16) — repare que o "vocês" ali é plural, é a comunidade. E daí João, no fim do Apocalipse, pode descrever a cidade de Deus sem templo nenhum, "porque o seu templo é o Senhor Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro" (Apocalipse 21:22). O edifício foi um meio. Quando o fim chega, o meio não é mais necessário.

É por isso que entender a estrutura do templo de Herodes não é curiosidade de arqueólogo. Cada pátio, cada degrau, cada véu era uma distância. E a conversa de João 2 — um galileu diante de uma obra de quarenta e seis anos, dizendo que o santuário de verdade era ele — fica muito mais ousada quando se sabe o tamanho do que ele estava comparando consigo mesmo.

Leia a cena completa em João 2:13-22.

Onde ficava o templo de Jerusalém e o que existe lá hoje?

Ficava no monte Moriá, no leste da cidade antiga de Jerusalém, onde hoje está a esplanada conhecida como Monte do Templo ou Haram al-Sharif. O local do antigo santuário é ocupado, desde o século VII, pelo Domo da Rocha, um santuário muçulmano. Do complexo de Herodes restam trechos dos muros de contenção da esplanada, entre eles o Muro das Lamentações, além de escadarias e ruínas no lado sul.

O Santo dos Santos estava vazio no tempo de Jesus?

Sim. A arca da aliança desapareceu na destruição de 586 a.C. e nunca foi recuperada. Josefo diz que no templo de Herodes o Santo dos Santos não continha nada, e a tradição judaica menciona apenas a pedra do fundamento, onde o sumo sacerdote colocava o incensário no Dia da Expiação. O lugar mais sagrado do judaísmo era um cômodo escuro e vazio.

Quantos templos houve em Jerusalém?

Dois, se a conta for pelo edifício: o de Salomão (c. 960–586 a.C.) e o de Zorobabel (516 a.C.–70 d.C.). O templo de Herodes foi uma reconstrução total do segundo, feita sem interromper o culto, e por isso o judaísmo fala de "Segundo Templo" para todo o período de 516 a.C. a 70 d.C. Na prática, porém, o que Jesus viu era um prédio novo, e é comum chamá-lo de templo de Herodes.

Por que Jesus expulsou os vendedores do templo?

O comércio em si era permitido e até necessário: os peregrinos precisavam de animais aprovados e de moeda certa para o imposto. Jesus cita Isaías 56:7 e Jeremias 7:11 em Mateus 21:13, apontando dois problemas: o pátio aberto a todos os povos tinha virado mercado, e a casa de oração estava servindo para exploração. João 2:16 acrescenta a frase "não façam da casa de meu Pai um mercado", o que mostra também a autoridade que ele reivindicava sobre o lugar.

Qual a diferença entre templo e sinagoga?

Havia um único templo, em Jerusalém, e só nele se ofereciam sacrifícios. Sinagogas havia em cada cidade e aldeia; eram casas de reunião para leitura da Lei, oração e ensino, sem altar nem sacerdotes oficiando. Jesus pregava em sinagogas pela Galileia e subia ao templo nas festas. Depois de 70 d.C., com o templo destruído, a sinagoga se tornou o centro da vida judaica.

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