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O que Jesus ensinou sobre o Reino de Deus

Bando de pássaros voa em céu azul com nuvens e sol alaranjado ao fundo.

Jesus ensinou que o Reino de Deus é o governo de Deus chegando ao mundo — e que chegou nele

A primeira coisa que Jesus pregou em público, segundo Marcos, foi isto: o Reino de Deus está próximo, arrependam-se e creiam. Tudo o que ele ensinou depois gira em volta dessa frase. O Reino não é um lugar no mapa nem só o céu depois da morte: é Deus assumindo o governo da vida das pessoas e, no fim, do mundo inteiro — e esse governo começou a entrar na história quando Jesus apareceu na Galileia.

— O tempo é chegado — dizia ele. — O reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam no evangelho!(Marg 1:15, NVI)

Jesus ensinou cinco coisas principais sobre esse Reino, e o artigo segue essa ordem: o que ele é (governo, não território), quando ele chega (já chegou, e ainda não chegou inteiro), como se entra (arrependimento, fé e um recomeço que ele chama de nascer de novo), quanto ele vale (mais que tudo o que a pessoa tem) e como vive quem pertence a ele. As parábolas, que são a parte mais famosa, são o jeito de Jesus explicar essas cinco coisas — não um assunto separado.

O que Jesus quis dizer com "Reino"

Em português, "reino" soa como território: as fronteiras, o castelo, o país. No hebraico e no grego do Novo Testamento, a palavra (malkut / basileia) aponta mais para o ato de reinar do que para o lugar reinado. "Reino de Deus" é, antes de tudo, Deus governando — a situação em que a vontade dele vale e acontece.

Vale notar que Jesus não inventou a expressão. Os judeus do tempo dele esperavam o Reino há séculos. Daniel tinha visto um reino que Deus levantaria e que destruiria todos os impérios humanos, um reino que "jamais será destruído" (Daniel 2:44). Os profetas falavam do dia em que Deus voltaria para reinar em Jerusalém. Então, quando Jesus diz "o Reino de Deus está próximo", ninguém pergunta "que reino?". A expectativa estava no ar: Roma fora, Israel livre, o Messias no trono.

É aqui que o ensino de Jesus surpreende. Ele confirma que o Reino chegou — e redefine quase tudo sobre como ele chega, quem entra e como ele cresce.

Uma pergunta frequente: por que Mateus escreve "Reino dos Céus" e Marcos e Lucas escrevem "Reino de Deus"? É a mesma coisa. Mateus escreve para leitores judeus, que evitavam pronunciar o nome de Deus por reverência, e usa "Céus" como substituto respeitoso — do mesmo jeito que o filho pródigo diz "pequei contra o céu" em Lucas 15:18. Quando Mateus 19:23-24 coloca as duas expressões lado a lado, elas são claramente sinônimas.

O Reino já chegou — e ainda não chegou

Esse é o ponto mais importante para entender o resto, e é onde a maioria das confusões nasce.

Por um lado, Jesus fala do Reino como algo que já está acontecendo. Quando expulsa demônios, ele diz que isso é o Reino de Deus chegando até as pessoas (Lucas 11:20). E, quando os fariseus perguntam quando o Reino vem, ele responde que eles estão olhando para o lugar errado:

Tampouco se dirá: "Aqui está ele!" ou "Lá está!". Porque o reino de Deus está entre vocês.(Lug 17:21, NVI)

A expressão grega aqui (entos hymōn) pode ser traduzida de dois jeitos, e as versões brasileiras dividem: a NVI traz "está entre vocês"; a ACF e a NAA trazem "está dentro de vós" / "dentro de vocês". A leitura mais aceita hoje, inclusive em comentários evangélicos, é "entre vocês" — porque Jesus está falando com fariseus que não creem nele, e não faria sentido dizer que o Reino está dentro deles. O sentido é: o Reino está aqui, no meio de vocês, na pessoa que está falando com vocês, e vocês não enxergam.

Por outro lado, Jesus também fala do Reino como algo que ainda vai chegar. Ele ensina os discípulos a pedir "venha o teu Reino" (Mateus 6:10) — ninguém pede que venha o que já veio por completo. Na última ceia, diz que não beberá vinho de novo "até que o Reino de Deus venha" (Lucas 22:18). E descreve um dia futuro em que o Rei vai separar as pessoas e dizer: "recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês" (Mateus 25:34).

Os dois são verdade ao mesmo tempo. A teologia costuma chamar isso de "já e ainda não": o Reino foi inaugurado na vinda de Jesus e será consumado na volta dele. Olha, isso não é malabarismo para encaixar textos contraditórios — é o jeito de ler que leva a sério tudo o que Jesus disse. Hoje o Reino está presente onde Deus governa de fato (nos corações, na igreja, nos sinais de justiça e cura); um dia vai estar presente em tudo, sem resistência.

É por isso que os cristãos vivem numa tensão. Já pertencem ao Reino, mas ainda adoecem, ainda sofrem injustiça, ainda morrem. O Reino já começou; o mundo ainda não foi inteiramente colocado em ordem. Quem espera que o Reino resolva tudo agora vai se frustrar; quem acha que ele é só coisa do futuro vai perder o que Deus está fazendo hoje.

Como se entra no Reino

Aqui Jesus corta a expectativa da época pela raiz. Os ouvintes achavam que já estavam dentro: eram descendentes de Abraão, guardavam a Lei, iam ao templo. Jesus diz que a entrada é outra.

A porta é o arrependimento e a fé, exatamente como Marcos 1:15 anuncia. Arrepender-se (metanoia) é mudar de direção: parar de governar a própria vida e aceitar o governo de Deus. Crer é confiar que a boa notícia é verdadeira. Jesus repete isso no fim de Mateus 21, numa frase dura para os religiosos: cobradores de impostos e prostitutas estão entrando no Reino antes deles, porque eles creram em João Batista e os religiosos não (Mateus 21:31-32).

A Nicodemos, um mestre da Lei que vai procurá-lo de noite, Jesus diz que entrar no Reino exige um recomeço que a pessoa não consegue produzir sozinha:

Em resposta, Jesus declarou:

— Em verdade lhe digo que ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo.(Jon 3:3, NVI)

Nascer de novo é a imagem de Jesus para a obra do Espírito de Deus na pessoa: um começo que vem de fora, de cima, e não de esforço religioso. Ninguém se faz nascer. Na leitura evangélica histórica, esse texto é a base para dizer que a entrada no Reino é obra da graça, recebida pela fé — e não um prêmio por bom comportamento. Outras tradições cristãs leem o versículo 5 ("nascer da água e do Espírito") com mais peso sobre o batismo; o ponto comum a todas é que a vida do Reino é vida nova, dada por Deus.

Há ainda dois grupos que Jesus coloca na frente da fila, de propósito. O primeiro são as crianças. Quando os discípulos tentam afastá-las, ele diz que o Reino pertence a elas e que ninguém entra sem recebê-lo "como uma criança" (Marcos 10:14-15). A criança não tem nada a oferecer e não finge que tem; recebe o que lhe é dado. É assim que se entra.

O segundo grupo são os pobres. "Bem-aventurados vocês, os pobres, pois a vocês pertence o Reino de Deus" (Lucas 6:20). Mateus registra a mesma bênção como "pobres em espírito" (Mateus 5:3), e as duas versões se completam: quem não tem recursos — materiais ou espirituais — para se defender diante de Deus é quem está em posição de receber. O rico, pelo contrário, tem dificuldade, "como um camelo passar pela agulha", porque está acostumado a comprar o que precisa (Marcos 10:23-25).

As parábolas de Lucas 15 mostram o mesmo de outro ângulo. O pastor deixa noventa e nove ovelhas para buscar uma; o pai corre para abraçar o filho que torrou a herança — e precisa lidar com o filho mais velho, que ficou em casa cumprindo tudo e agora está do lado de fora da festa, ofendido. Leia Lucas 15 inteiro com isso em mente: Jesus está explicando aos fariseus por que ele come com pecadores. O Reino é assim porque o Rei é assim.

Quanto o Reino vale

Se o Reino é tudo isso, o que Jesus espera que a pessoa faça com ele? Duas parábolas curtíssimas de Mateus 13 respondem.

Na primeira, um homem acha um tesouro enterrado num campo, esconde de novo e vende tudo o que tem para comprar o campo (Mateus 13:44). Na segunda, a cena é parecida, mas o personagem é outro:

— O reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou.(Methiu 13:45,46, NVI)

Repare na diferença entre os dois homens. O primeiro tropeça no tesouro sem procurar; o segundo é um profissional que passou a vida procurando pérolas. Um encontra por acaso, o outro por busca. Mas a reação é idêntica: vendem tudo. E repare também que nenhum dos dois faz isso com cara de sacrifício — o do campo age "cheio de alegria". Vender tudo não é perda quando o que você compra vale mais que tudo.

Esse é o ensino: o Reino vale a vida inteira, e quem entende isso não precisa ser convencido a dar prioridade a ele. Jesus diz a mesma coisa sem parábola, no Sermão do Monte, depois de falar das preocupações com comida e roupa:

Busquem, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês.(Methiu 6:33, NVI)

"Em primeiro lugar" não é uma lista em que Deus vem em cima e o resto embaixo. É a lógica da pérola: há uma coisa que, quando está no centro, organiza todas as outras. Jesus não promete que quem busca o Reino vai ficar rico; promete que o Pai sabe do que a pessoa precisa e cuida disso. A ansiedade perde força quando a vida tem um dono.

Como o Reino cresce

Se o Reino chegou com Jesus, por que ele não derrubou Roma? Por que doze pescadores e um punhado de mulheres? Os ouvintes de Jesus faziam essa pergunta, e as parábolas de crescimento em Mateus 13 são a resposta dele.

Mulher de manto na cabeça amassa massa numa grande tigela, em casa de pedra rústica.

O grão de mostarda era a menor semente que um agricultor da Galileia conhecia; a planta que sai dela chega à altura de um homem, e os pássaros fazem ninho nela (Mateus 13:31-32). O fermento é ainda menor em proporção:

Jesus contou-lhes ainda outra parábola:

— O reino dos céus é como o fermento que uma mulher pegou e misturou com três satos de farinha, e toda a massa ficou fermentada.(Methiu 13:33, NVI)

Três medidas de farinha são uns vinte quilos — massa para alimentar cem pessoas. O fermento desaparece dentro dela, não se vê nada por um tempo, e no fim toda a massa está transformada. É assim, diz Jesus, que o Reino age: de dentro para fora, devagar, sem alarde, até mudar o conjunto. Não começa pelo trono; começa pelo coração de quem crê e se espalha de pessoa em pessoa.

A parábola do semeador, que abre o mesmo capítulo, acrescenta uma nota realista: a mesma mensagem cai em quatro tipos de terreno — o caminho pisado, onde os pássaros comem a semente; a pedra, onde ela brota rápido e seca; os espinhos, onde é sufocada; e a boa terra, que dá trinta, sessenta, cem por um. Jesus explica depois que os terrenos são corações, e que a diferença não está na semente, mas em como cada um recebe a palavra do Reino. Vale ler Mateus 13 completo, com essas três parábolas juntas: elas respondem, uma de cada vez, "por que o Reino parece tão pequeno?", "por que ele não é visível?" e "por que nem todo mundo recebe?".

O Reino não é deste mundo — mas está neste mundo

A frase mais mal-entendida de Jesus sobre o Reino foi dita a Pilatos, na madrugada da crucificação. O governador romano quer saber se está diante de um rebelde político. Jesus responde:

Jesus disse:

— O meu reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu reino não é daqui.(Jon 18:36, NVI)

Muita gente lê "não é deste mundo" como "não tem nada a ver com este mundo" — como se o Reino fosse puramente espiritual, interior, sem consequência para a vida real. Mas repare na prova que o próprio Jesus dá: "se fosse, os meus servos lutariam". O ponto não é onde o Reino está, mas de onde vem a sua autoridade e com que armas ele avança. Ele não vem de baixo, de Roma ou de Jerusalém, e não se impõe pela espada. Vem de Deus, e avança do jeito do fermento.

Isso tem duas consequências práticas, e Jesus ensinou as duas. A primeira é que o Reino não se confunde com nenhum governo humano, partido ou nação — nem com Israel do primeiro século, nem com qualquer país de hoje. A segunda é que ele muda, sim, a vida neste mundo: a cura, a comida aos famintos, a justiça ao oprimido são sinais dele agora, e não só promessas para depois.

Como vive quem pertence ao Reino

Entrar no Reino é de graça; viver nele tem uma forma. O Sermão do Monte (Mateus 5-7) é o lugar onde Jesus descreve essa forma com mais detalhe, e ele começa dizendo de quem é o Reino (os pobres em espírito, os que choram, os perseguidos) antes de dizer o que eles fazem. A ordem importa: primeiro a pessoa é do Reino, depois vive como tal.

O que ele exige é mais fundo que a Lei, não mais raso: "se a justiça de vocês não exceder a dos fariseus, de modo nenhum entrarão no Reino" (Mateus 5:20). Não basta não matar; é preciso não guardar ódio. Não basta amar quem ama você; é preciso amar o inimigo. Não basta dar esmola; é preciso dar sem que a mão esquerda saiba.

A parábola do bom samaritano mostra essa ética em cena. Um doutor da Lei pergunta "quem é o meu próximo?" para saber onde termina a obrigação dele. Jesus conta a história de um homem espancado na estrada, de um sacerdote e de um levita que passam ao largo, e de um samaritano — inimigo religioso e étnico dos judeus — que para, cuida das feridas, paga a hospedagem. E devolve a pergunta invertida: não "quem é meu próximo?", mas "de quem você se fez próximo?" (Lucas 10:25-37). No Reino, o próximo não é quem merece a sua ajuda; é quem precisa dela.

Por fim, Jesus liga a vida no Reino ao julgamento final. Em Mateus 25, o Rei separa as pessoas não por quanto sabiam de teologia, mas pelo que fizeram com o faminto, o estrangeiro, o doente, o preso — "o que fizeram a um destes meus pequeninos, a mim o fizeram" (Mateus 25:31-46). Na leitura evangélica histórica, isso não ensina salvação por obras — a entrada continua sendo pela fé, como Jesus disse a Nicodemos. Ensina que a fé verdadeira produz essa forma de vida, e que a ausência dela denuncia que o fermento nunca entrou na massa.

Voltando ao começo

Tudo isso estava comprimido na primeira pregação de Jesus. "O tempo é chegado": a espera dos profetas terminou. "O Reino de Deus está próximo": Deus está assumindo o governo, e começa aqui, em mim. "Arrependam-se": mudem de direção, deixem de governar a si mesmos. "Creiam nas boas-novas": isso é notícia boa, não ameaça.

Depois da ressurreição, Lucas conta que Jesus passou quarenta dias com os discípulos falando "a respeito do Reino de Deus" (Atos 1:3). Foi o primeiro assunto e foi o último. Leia Marcos 1:14-15 de novo sabendo disso: cada palavra ali abriu uma porta que o resto dos evangelhos atravessa.

O Reino de Deus é a igreja?

Não exatamente. A igreja é a comunidade de quem já entrou no Reino e vive sob o governo de Deus; o Reino é maior que ela — é o próprio governo de Deus, que um dia alcançará toda a criação. Jesus nunca disse "a igreja está próxima", disse "o Reino". A igreja é o sinal e o instrumento do Reino no mundo, não o Reino inteiro.

O Reino de Deus é o céu?

O céu faz parte do Reino, mas o Reino não é só o céu. Jesus disse que ele "está próximo" e "está entre vocês" aqui, agora, e ensinou a pedir "venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu" (Mateus 6:10). O Reino é Deus governando — hoje de forma parcial, no fim de forma total, numa terra renovada.

Qual é a diferença entre Reino de Deus e Reino dos Céus?

Nenhuma, no conteúdo. Mateus usa "Reino dos Céus" porque escreve para judeus, que evitavam pronunciar o nome de Deus por reverência; Marcos, Lucas e João usam "Reino de Deus". Em Mateus 19:23-24, as duas expressões aparecem lado a lado com o mesmo sentido. Algumas correntes dispensacionalistas antigas distinguiram os dois termos, mas a maioria dos estudiosos evangélicos hoje os trata como sinônimos.

O Reino de Deus está dentro de nós?

Depende da tradução de Lucas 17:21. A ACF e a NAA trazem "dentro de vós"; a NVI traz "entre vocês". O grego permite as duas, mas como Jesus falava com fariseus que o rejeitavam, a leitura mais provável é "entre vocês" — o Reino estava presente na pessoa de Jesus, no meio deles. Isso não nega que o Reino age no coração de quem crê; só não é o que esse versículo em particular afirma.

Quando o Reino de Deus vai chegar por completo?

Jesus ensinou que isso acontece na volta dele, quando o Rei vai julgar as nações e dizer aos seus: "recebam como herança o Reino" (Mateus 25:34). Ele também disse que ninguém sabe o dia nem a hora (Mateus 24:36). Os cristãos divergem sobre os detalhes da sequência final — pré-milenistas, amilenistas e pós-milenistas leem Apocalipse 20 de modos diferentes —, mas todos concordam que o Reino já começou com Cristo e será consumado quando ele voltar.

Caio CésarSandra Benfatti
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