Quem era Barrabás e por que ele foi solto no lugar de Jesus
Redação Bíblia Online Publicado em
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Um preso comum, na cena mais importante da história
Barrabás foi um prisioneiro de Jerusalém, preso por participar de uma revolta em que houve morte, e que Pôncio Pilatos soltou no lugar de Jesus na manhã da Páscoa. Os quatro Evangelhos contam isso, sempre na mesma cena, e ele não diz uma palavra em nenhum deles. Entra preso, sai livre, e a Bíblia não fala mais dele.
É pouco para um nome tão lembrado. Mas é justamente por isso que ele importa: Barrabás é o homem que ocupava a cela e que, no fim daquela manhã, estava na rua enquanto Jesus carregava a cruz. Lucas resume a troca numa frase só.
E soltou-lhes o que fora lançado na prisão por uma sedição e homicídio, que era o que pediam; mas entregou Jesus à vontade deles.(Lucas 23:25)
Esse é o versículo que segura a história inteira. O que vem abaixo explica cada pedaço dela: quem era esse homem, o que ele tinha feito, por que existia a chance de soltar alguém, por que a multidão pediu justamente ele — e o que a igreja viu, desde cedo, nesse lugar vazio na cela.
Este artigo faz parte de Estudos Bíblicos Personagens Bíblicos
O que Barrabás tinha feito
Os Evangelhos não contam a história dele, mas dão quatro descrições que, somadas, dizem bastante.
Marcos é o mais específico: Barrabás estava preso junto com outros rebeldes, por causa de um homicídio cometido durante uma revolta.
E havia um chamado Barrabás, que, preso com outros amotinadores, tinha num motim cometido uma morte.(Marcos 15:7)
Lucas confirma os dois crimes, sedição e homicídio. Mateus só diz que ele era um preso famoso — a palavra grega é episēmos, "conhecido", "notório". E João o chama de salteador, usando lēstēs, um termo que na Palestina do século 1 valia tanto para assaltante de estrada quanto para revoltoso armado. O historiador judeu Flávio Josefo usa essa mesma palavra para os grupos que pegavam em armas contra Roma.
Juntando as peças: Barrabás não era um ladrão de galinha. Era um homem envolvido num levante violento contra o domínio romano, com sangue nas mãos, e conhecido o bastante para a multidão saber quem era quando Pilatos disse o nome.
Vale separar o que é texto do que é dedução. Que ele matou alguém numa revolta, o texto afirma. Que ele era um líder de guerrilha ou um "zelote" organizado, é inferência — razoável, mas inferência. Os Evangelhos não dizem qual era o grupo dele nem qual foi a revolta. Na época, Jerusalém vivia de pequenos levantes e Roma os esmagava rápido; Barrabás provavelmente estava na fila para a crucificação, que era a pena romana para esse tipo de crime.
O que significa o nome Barrabás
Barrabás não é bem um nome; é um sobrenome. Em aramaico, Bar-Abba quer dizer "filho do pai" — bar é "filho", abba é "pai". Era um jeito comum de identificar alguém: Simão Bar-Jonas é "Simão, filho de Jonas"; Bartimeu é "filho de Timeu".
O detalhe é que "Abba" também era usado como nome próprio entre os judeus da época, então o sentido mais simples é "filho de um homem chamado Abba". Não há nada de misterioso no nome em si.
O que chama atenção é a coincidência. Jesus é quem chamava Deus de Abba — a palavra aparece na boca dele em Marcos 14:36, no Getsêmani, poucas horas antes dessa cena. Diante de Pilatos ficam lado a lado o "filho do pai" por sobrenome e o Filho do Pai por natureza. Os Evangelhos não exploram esse jogo de palavras — isso é observação de leitor, não afirmação do texto. Mas é difícil não notar.
Há ainda um detalhe de manuscrito que muita gente desconhece. Alguns manuscritos antigos de Mateus 27:16-17 trazem o nome completo do preso como "Jesus Barrabás". Orígenes, um estudioso cristão do século 3, já conhecia essa leitura. Se estiver certa, a pergunta de Pilatos soou assim: "Qual dos dois vocês querem que eu solte: Jesus Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?" Dois homens com o mesmo nome, e a multidão escolhendo entre eles. A maioria das Bíblias mantém só "Barrabás" no texto principal, e algumas versões, como a NVI, registram a variante em nota de rodapé. Não dá para ter certeza de qual leitura é a original — mas a possibilidade torna a cena ainda mais nítida.
Por que Pilatos podia soltar um preso na Páscoa
Marcos explica a origem da escolha como um costume do governador na festa.
Ora, no dia da festa costumava soltar-lhes um preso qualquer que eles pedissem.(Marcos 15:6)
Mateus diz o mesmo, e João registra Pilatos falando do costume como algo que os judeus tinham — ou seja, uma prática que o governo romano mantinha para a população local, não uma lei do império.
Fora dos Evangelhos, não existe nenhum documento romano descrevendo uma anistia regular de Páscoa em Jerusalém, e por isso alguns historiadores questionam se o costume era mesmo anual. Dois pontos ajudam a entender. Primeiro, os governadores romanos tinham poder de perdoar prisioneiros a seu critério; há registros de soltura de presos em festas em outras províncias. Segundo, a Páscoa era a festa da libertação do Egito, com Jerusalém lotada de peregrinos e o clima político sempre tenso. Soltar um preso popular nessa data era um gesto barato para acalmar a cidade.
Quem lê os Evangelhos com fé aceita o relato deles: havia o costume. O que importa para a história é o que Pilatos tentou fazer com ele.
O que Pilatos estava tentando
Pilatos não queria condenar Jesus. Isso é unânime nos quatro relatos. Em Lucas, ele declara a inocência de Jesus três vezes seguidas (versículos 4, 14 e 22); em João, depois de interrogá-lo, sai e diz à multidão que não encontra nele crime nenhum.
O problema é que ele também não queria pagar o preço de soltá-lo. Os líderes do Templo tinham trazido Jesus com acusação política — dizia-se rei — e um governador que solta um "rei dos judeus" na Páscoa pode ser denunciado a Roma. João mostra o argumento sendo usado na cara dele: quem solta esse homem não é amigo de César.
Então Pilatos tenta saídas laterais. Manda Jesus a Herodes, que o devolve (Lucas 23:7-11). Propõe açoitá-lo e soltar (Lucas 23:16). E usa o costume da Páscoa como aposta: oferece à multidão a escolha entre Jesus e Barrabás.
A lógica da aposta é fácil de reconstruir. Pilatos sabia que Jesus era popular entre o povo — tinha entrado na cidade aclamado dias antes. Sabia que a acusação vinha dos sacerdotes, não da multidão. Oferecer um pregador conhecido ao lado de um assassino parecia um jeito seguro de soltar Jesus sem ter que contrariar os líderes abertamente: "foi o povo que escolheu".
A aposta deu errado.
Por que a multidão pediu Barrabás
Mateus é quem explica o que aconteceu entre a pergunta de Pilatos e a resposta da multidão.
Mas os principais sacerdotes e os anciãos persuadiram à multidão que pedisse Barrabás e matasse Jesus.(Mateus 27:20)
A multidão não decidiu sozinha. Foi trabalhada. Os sacerdotes e anciãos tinham um motivo claro, que João já registrava semanas antes: se Jesus continuasse, os romanos viriam e tirariam deles o lugar e a nação. Jesus havia esvaziado a autoridade deles no Templo, virado mesas, falado da destruição do santuário. Para eles, Barrabás era um criminoso comum; Jesus era uma ameaça ao sistema.
Mas por que o povo cedeu? Aqui o texto não entra na cabeça das pessoas, então o que segue é leitura, e vale ser honesto sobre isso.
Primeiro: a multidão diante de Pilatos naquela madrugada não era necessariamente a mesma do Domingo de Ramos. Era quem estava no pátio do governador a essa hora — e quem tinha interesse em estar lá eram os aliados do Sinédrio e, possivelmente, gente que torcia por Barrabás e tinha vindo pedir a soltura dele.
Segundo: Barrabás pode ter sido, aos olhos de muitos, um herói. Um homem que pegou em armas contra Roma era exatamente o tipo de "messias" que boa parte do povo esperava. Jesus, acorrentado, calado, sem levantar um dedo contra o governador, decepcionava essa expectativa.
Terceiro: a pressão de uma multidão gritando fora com este faz coisas com as pessoas. Lucas mostra Pilatos insistindo e a voz do povo crescendo até ele desistir. Marcos conta que ele, querendo agradar a multidão, soltou Barrabás. Mateus acrescenta o gesto de lavar as mãos (Mateus 27:24) — a tentativa de se declarar inocente de uma decisão que ele mesmo acabou de tomar.
No fim, cada um tinha o seu motivo, e nenhum deles era "Jesus é culpado". Pilatos quis se proteger. Os líderes quiseram se livrar de uma ameaça. O povo quis um libertador do jeito que entendia libertação. E Barrabás foi para casa.
O que a troca significa
Os Evangelhos não explicam a troca. Nenhum dos quatro escreve "isso aconteceu para mostrar que...". Eles simplesmente contam: pediram o culpado, soltaram o culpado, crucificaram o inocente. Tudo o que vem a seguir é interpretação cristã — antiga e bem fundamentada, mas interpretação, e é bom saber onde ela nasce.
Desde cedo os cristãos leram Barrabás como uma imagem viva do que a cruz realiza. A lógica é esta: havia um homem condenado, culpado de fato, que merecia a cruz pelos padrões de qualquer tribunal; e naquela cruz, naquele dia, foi pregado um inocente, enquanto o culpado saiu livre. Isaías tinha descrito o Servo do Senhor exatamente nesses termos, séculos antes.
Mas ele foi ferido por causa
das nossas transgressões,
e moído por causa
das nossas iniquidades;
o castigo que
nos traz a paz estava
sobre ele,
e pelas suas pisaduras fomos sarados.(Isaías 53:5)
Paulo diz a mesma coisa sem metáfora.
Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.(2 Coríntios 5:21)
Na teologia evangélica histórica, essa é a leitura central da cruz: Jesus morre como substituto, tomando sobre si a culpa de quem não tinha como se livrar dela. Barrabás não é a doutrina — ele é a doutrina acontecendo diante dos olhos de todo mundo, na praça. O lugar que era dele na cruz foi ocupado por outro. Ninguém naquela manhã precisou de um sermão para entender a troca; bastava olhar.
Outras tradições cristãs leem a mesma cena enfatizando outros aspectos. Há quem veja ali, sobretudo, o retrato de uma humanidade que prefere o messias armado ao messias servo — o julgamento do povo sobre si mesmo. Há quem destaque a inocência de Jesus declarada por um juiz pagão, como cumprimento do Cordeiro sem defeito da Páscoa. Essas leituras não se excluem; a Escritura é farta o bastante para sustentar várias delas ao mesmo tempo. Mas a leitura da substituição é a que a tradição evangélica coloca no centro, e é a que este texto defende.
Uma observação cabe aqui, para não ir além do texto. Barrabás não foi solto por causa da morte de Jesus — ele foi solto pela escolha da multidão, e Jesus foi condenado porque alguém precisava ser. A troca é imagem, não mecanismo. O que a imagem mostra é o padrão: o culpado livre, o inocente no lugar dele. É isso que a cruz faz em escala maior, e é isso que Jesus mesmo tinha dito que vinha fazer, quando disse que veio buscar e salvar o que estava perdido.
O que aconteceu com Barrabás depois
Nada que a Bíblia registre. Ele sai da cena no momento em que é solto e não volta. Não sabemos se ficou em Jerusalém, se viu a crucificação, se algum dia entendeu de quem tinha ocupado o lugar. Existem lendas posteriores, inclusive romances e filmes que imaginam a conversão dele, mas nenhuma tem base histórica. Qualquer afirmação sobre a vida de Barrabás depois daquela manhã é ficção.
E isso, de certa forma, é parte da lição. Barrabás recebeu de graça uma liberdade que não merecia, pela condenação de um homem que não conhecia — e o texto não conta se ele fez algo com isso. A pergunta fica em aberto, e não é só sobre ele.
Onde ler a história inteira
A cena está nos quatro Evangelhos, e vale ler mais de um, porque cada um guarda um detalhe que o outro não tem: Mateus traz o gesto das mãos lavadas, Marcos a palavra "revolta", Lucas as três declarações de inocência, João a discussão sobre César. O relato mais completo da troca em si é o de Lucas; leia Lucas 23 do versículo 13 ao 25 e repare como a frase final — "entregou Jesus à vontade deles" — vem logo depois de "soltou-lhes o que fora lançado na prisão". É nessa sequência que a troca está.
Barrabás era ladrão ou assassino?
Os dois, se juntarmos os Evangelhos. Marcos e Lucas dizem que ele cometeu homicídio durante uma revolta (Marcos 15:7; Lucas 23:19); João o chama de lēstēs, palavra que algumas Bíblias traduzem por "ladrão" e outras por "salteador" ou "bandido". Na época, esse termo se aplicava a quem usava violência armada, inclusive revoltosos contra Roma. Ele não era um batedor de carteira.
Barrabás era zelote?
O movimento zelote como partido organizado só aparece com clareza algumas décadas depois, na guerra contra Roma. Os Evangelhos dizem que Barrabás participou de uma revolta com morte, o que o coloca entre os insurgentes contra o domínio romano, mas não dão o nome de nenhum grupo. Chamá-lo de zelote é um atalho moderno, não uma afirmação do texto.
O nome de Barrabás era Jesus?
Alguns manuscritos antigos de Mateus 27:16-17 trazem "Jesus Barrabás", e Orígenes, no século 3, já conhecia essa leitura. A maior parte dos manuscritos traz só "Barrabás", e é essa a forma que aparece no texto principal das Bíblias; versões como a NVI mencionam a variante em nota. Não há consenso sobre qual é a leitura original.
Pilatos realmente tinha o costume de soltar um preso na Páscoa?
Os Evangelhos afirmam que sim (Marcos 15:6; Mateus 27:15; João 18:39). Fora deles não há documento romano que descreva essa anistia específica, e por isso alguns historiadores a questionam. Sabe-se, porém, que governadores romanos tinham poder de perdoar prisioneiros e que gestos assim em festas locais eram usados para manter a paz em províncias tensas.
Por que Jesus não se defendeu diante de Pilatos?
Em Mateus e Marcos, Jesus praticamente não responde às acusações, e Pilatos se admira com isso (Mateus 27:14). A leitura cristã tradicional vê aí o cumprimento de Isaías 53:7, onde o Servo do Senhor "não abriu a boca" diante dos acusadores. Em João, ele fala — mas sobre a natureza do seu reino, não para escapar da condenação (João 18:36-37).
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