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O que os anjos simbolizam na história do Natal?

Por Bíblia Online  - 
Três enfeites de anjinhos de porcelana com asas coloridas pendurados em uma árvore de Natal.

Anjo quer dizer "mensageiro" — e é isso que eles fazem no Natal

Na história do Natal, os anjos são antes de tudo mensageiros. A palavra grega angelos, como a hebraica mal'ak, significa literalmente isso: enviado, quem traz um recado. Toda vez que um anjo aparece em Lucas 1–2 e Mateus 1–2 é porque Deus tem algo a dizer a alguém — e diz antes de a coisa acontecer.

Então, se a pergunta é o que eles "simbolizam", a resposta tem duas partes, e vale separar. O que o texto diz: anjos são seres reais que levam a palavra de Deus a pessoas concretas, tiram o medo delas e, numa noite, puxam o primeiro louvor pelo menino que nasceu. O que isso sugere — e aqui já é leitura, não texto — é que o nascimento de Jesus não foi um acidente que o céu descobriu depois. Foi iniciativa de Deus, anunciada com antecedência, e o céu sabia o que estava acontecendo em Belém antes de Belém saber.

O anúncio aos pastores concentra tudo isso em duas frases:

E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo, pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor.

Repare na ordem. Primeiro ele desfaz o medo. Depois anuncia uma alegria "para todo o povo". Só então diz o fato: hoje nasceu o Salvador, na cidade de Davi. Essa sequência se repete, com variações, em cada aparição.

Seis vezes: todas as aparições de anjos na história do Natal

Juntando Lucas e Mateus, anjos aparecem seis vezes entre o anúncio de João Batista e a volta do Egito:

  1. A Zacarias, no templo — Gabriel anuncia o nascimento de João Batista (Lucas 1:11-20). Zacarias duvida e fica mudo até o menino nascer.

  2. A Maria, em Nazaré — Gabriel anuncia que ela dará à luz o Filho de Deus (Lucas 1:26-38).

  3. A José, em sonho — um "anjo do Senhor" explica que a gravidez vem do Espírito Santo, manda que ele receba Maria e dê ao menino o nome de Jesus (Mateus 1:20).

  4. Aos pastores, no campo — um anjo anuncia o nascimento; em seguida, uma multidão louva a Deus (Lucas 2:8-14).

  5. A José, de novo em sonho — ordem para fugir ao Egito, porque Herodes vai procurar o menino (Mateus 2:13).

  6. A José, pela terceira vez — aviso de que Herodes morreu e é hora de voltar (Mateus 2:19-20).

Dá para ver um padrão. Lucas conta os anúncios anteriores ao nascimento e a noite de Belém; Mateus conta os recados que chegam a José, sempre em sonho, e dois deles depois que Jesus já nasceu. Ou seja: os anjos não somem quando o menino chega. Eles continuam trabalhando para que ele sobreviva à infância.

"Não temas": a primeira palavra do anjo é quase sempre a mesma

Olha a reação das pessoas. Zacarias "se perturbou, e o temor o assaltou" (Lucas 1:12). Maria fica "perturbada" com a saudação (Lucas 1:29). Os pastores "ficaram tomados de grande temor" (Lucas 2:9). Ninguém, na Bíblia, encontra um anjo e acha fofo.

Por isso a frase que abre o recado é quase sempre a mesma: "não temas" — a Zacarias, a Maria, aos pastores e a José.

E, projetando ele isso, eis que, em sonho, lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo.(Mateus 1:20)

Isso aqui é importante. O "não temas" do anjo nunca é "não há nada a temer". É "trago uma notícia que muda a situação". O medo de José era real: a noiva estava grávida e ele não era o pai. O anjo não nega o fato — explica o fato. O texto sugere que é assim que Deus trata o medo das pessoas na história do Natal: não com anestesia, mas com informação. O que elas temiam era, de fato, obra dele.

Gabriel: o anjo que tem nome

Dos anjos que aparecem na Bíblia, só dois têm nome: Miguel e Gabriel. E Gabriel já tinha aparecido antes, em Daniel 8:16 e 9:21, explicando ao profeta visões sobre o futuro de Israel e a vinda de um Ungido. Quem conhecia Daniel e ouvia Lucas dizer "Gabriel" fazia a conexão: o mesmo que explicou a promessa agora anuncia o cumprimento. Essa ligação é leitura, mas é a leitura que o próprio nome convida a fazer.

Quando Zacarias duvida, Gabriel se apresenta:

E, respondendo o anjo, disse-lhe: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado a falar-te e dar-te estas alegres novas.(Lucas 1:19)

"Assisto diante de Deus" é linguagem de corte: ele está na presença do rei, e por isso o recado não é opinião dele. A tradição costuma ler o nome Gabriel como "Deus é forte" ou "homem de Deus" (de geber, homem forte, e El, Deus). Vale notar que Mateus nunca nomeia o anjo que fala com José; ele é só "o anjo do Senhor".

Por que aos pastores, e não a reis

O texto não explica por que o anúncio da noite foi para o campo e não para o palácio. Mas deixa pistas.

A primeira está na própria frase do anjo: Belém é "a cidade de Davi" (Lucas 2:11), e Davi era um pastor de Belém quando foi chamado para ser rei (1 Samuel 16:11). O descendente de Davi nasce e os primeiros a saber são gente da mesma profissão, nos mesmos campos.

A segunda é o jeito de Lucas contar a história toda. Poucos versículos antes, Maria canta que Deus "derribou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes" (Lucas 1:52). Pastores eram trabalhadores que passavam a noite fora, longe de tudo o que dava prestígio. Uma alegria "para todo o povo" começar por eles combina com o que Lucas vem dizendo desde o início.

E há o contraste que o outro evangelho fornece. O único rei que fica sabendo do nascimento é Herodes, pelos magos — e a reação dele é mandar matar (Mateus 2:3). O palácio recebe a notícia e vê ameaça; o campo recebe e vai correndo ver o menino, depois conta a todo mundo (Lucas 2:17-20). Os pastores acabam sendo os primeiros a anunciar Jesus a outras pessoas.

O que o céu diz sobre o menino

Depois do anúncio, o anjo deixa de estar sozinho:

E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens!(Lucas 2:13,14)

"Exército celestial" é tradução de stratia, palavra militar mesmo: hoste, tropa. Não é um coral; é o exército do céu em formação, e o que ele faz é louvar. A frase tem duas linhas: glória a Deus, nas alturas; paz, na terra.

Um detalhe de tradução vale a pena aqui, porque muda o que se lê. Na Almeida Revista e Corrigida, o versículo termina em "boa vontade para com os homens" — três declarações. Na Nova Versão Internacional e na Almeida Revista e Atualizada, termina em "paz na terra aos homens a quem ele quer bem" — a paz é para quem recebe o favor de Deus. A diferença no grego é uma letra no fim de uma palavra (eudokia ou eudokias), e os manuscritos se dividem. As duas leituras são cristãs e legítimas; nenhuma delas diz que a paz vem do esforço humano.

A leitura cristã histórica vê nessas duas linhas o programa inteiro do Natal: a glória é de Deus, a paz é para a terra, e o menino na manjedoura é o ponto onde as duas se encontram. Isso é interpretação — mas é a interpretação que o próprio Lucas constrói, chamando o menino de "Salvador" um versículo antes. E tem algo curioso que Pedro observa mais tarde: os anjos não são salvos por Jesus, mas "desejam contemplar" essas coisas (1 Pedro 1:12). O céu celebra uma salvação que não é dele.

Anjos cantando, asas e anjo na manjedoura: o que é texto e o que é tradição

Boa parte da imagem que temos dos anjos do Natal vem de presépios, canções e pinturas, não do texto. Nada de errado em tradição — só convém saber o que é o quê.

Os anjos cantaram? Lucas diz que a multidão estava "louvando a Deus e dizendo" (Lucas 2:13,14) — o verbo grego é legontōn, "dizendo". O texto não diz que cantaram. A ideia do "Glória" cantado vem da liturgia da igreja, que transformou essas palavras em hino muito cedo.

Tinham asas? Nenhum anjo da história do Natal é descrito com asas. Gabriel "estava em pé, à direita do altar" (Lucas 1:11); o anjo de José aparece em sonho. Na Bíblia, quem tem asas são os serafins de Isaías 6:2 e os querubins da arca — figuras diferentes, de outros contextos.

Havia anjo na manjedoura? No texto, não. Os anjos aparecem aos pastores no campo; na manjedoura estão Maria, José e o menino. Os pastores vão até lá por conta do que ouviram.

Nada disso tira a beleza do presépio. Só devolve ao texto o que ele realmente conta — que é mais sóbrio e, por isso mesmo, mais forte.

Volte à noite de Belém

O anjo não pediu para ser lembrado. Disse "não temais", disse o que tinha nascido e onde, e os pastores foram embora ver o menino. Leia Lucas 1 e 2 e Mateus 1 e 2 inteiros, de uma vez: os anjos entram e saem, e quem fica no centro da história é quem eles vieram anunciar.

Quantos anjos apareceram aos pastores?

O texto fala de um anjo que faz o anúncio e depois de uma "multidão do exército celestial" que se junta a ele (Lucas 2:9-13). Não dá número. A imagem de um anjo solitário e a de um coro enorme são as duas verdadeiras, em momentos seguidos.

Os magos também receberam a visita de um anjo?

Mateus diz que foram "avisados em sonho" para não voltar a Herodes (Mateus 2:12), mas não menciona anjo. Quem fala com os magos, no relato, é a estrela e o sonho; os anjos de Mateus aparecem sempre a José.

Por que o anjo fala a José em sonho e a Maria acordada?

O texto não explica, e vale não inventar. O que se nota é que Mateus conta a história pelo lado de José e usa o sonho como meio em todas as vezes, enquanto Lucas conta pelo lado de Maria e descreve aparições diretas. São dois evangelistas com focos diferentes narrando a mesma série de acontecimentos.

Gabriel é arcanjo?

A Bíblia não chama Gabriel de arcanjo; esse título aparece só para Miguel (Judas 9). A tradição cristã estendeu o termo a Gabriel por causa da importância das mensagens que ele traz em Daniel e em Lucas, mas isso é tradição, não texto.

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