Deus e o seu povo
1 Poema da coleção de Assaf78,1 Ver 50,1 e nota..
Escuta, meu povo, os meus ensinamentos;
presta atenção àquilo que te digo!
2 Vou falar por meio de comparações
e apresentar enigmas de outros tempos78,2 Texto citado em Mt 13,35, segundo a antiga tradução grega.,
3 coisas que ouvimos e aprendemos
e que os nossos antepassados nos transmitiram.
4 Não as esconderemos aos nossos descendentes;
tudo contaremos às gerações futuras
sobre as glórias do Senhor e o seu poder
e sobre as maravilhas que ele fez.
5 Ele deu preceitos ao povo de Israel,
deu uma lei aos descendentes de Jacob.
Ordenou aos nossos antepassados
que os ensinassem aos seus descendentes,
6 para que as gerações futuras os conhecessem
e os filhos que haviam ainda de nascer
os contassem aos seus próprios filhos;
7 para que tivessem confiança em Deus
e não se esquecessem do que ele fez;
para que obedecessem aos seus mandamentos
8 e não fossem como os seus antepassados,
rebeldes, insensatos, de coração inconstante
e de espírito infiel ao seu Deus.
9 Os da tribo de Efraim, armados com arcos e flechas,
puseram-se em fuga no dia da batalha;
10 não respeitaram a aliança com Deus
nem quiseram obedecer à sua lei;
11 esqueceram-se do que ele lhes tinha feito,
das maravilhas que lhes mostrou.
12 Diante dos seus antepassados, Deus fez maravilhas,
na terra do Egito, na planície de Soan.
13 Abriu o mar, para que eles passassem,
conteve as águas, como se fosse um dique78,13 Ver Ex 14,21–22..
14 Conduziu-os, de dia, com uma nuvem
e toda a noite com uma luz de fogo78,14 Ver Ex 13,21–22..
15 No deserto fendeu os rochedos
e deu-lhes a beber de uma fonte inesgotável78,15 Literalmente: como de um oceano imenso..
16 Deus fez sair da rocha água corrente
que brotava como um rio caudaloso78,16 Ver Ex 17,1–7; Nm 20,2–13..
17 Mas eles continuaram a pecar contra Deus,
mostrando-se rebeldes contra o Altíssimo, no deserto.
18 Quiseram pôr Deus à prova,
pedindo-lhe manjares, segundo os seus apetites.
19 Murmuraram contra ele, dizendo:
«Será Deus capaz de nos preparar uma mesa no deserto?
20 É verdade que ele feriu a rocha
e que dela correu água com abundância,
mas poderá ele dar-nos também pão
e preparar carne para o seu povo?»
21 Quando o Senhor ouviu isto, indignou-se,
atacou o povo de Jacob com o fogo
e a sua ira aumentou contra Israel;
22 porque não tiveram fé em Deus
nem confiança no seu auxílio.
23 Deus deu ordens às nuvens
e abriu as portas do céu;
24 fez chover sobre o povo o maná;
deu-lhes o pão do céu para eles comerem78,24 Texto citado em Jo 6,31.!
25 Comeram todos o pão dos fortes!
Enviou-lhes comida com abundância!
26 Fez soprar dos céus o vento leste
e com o seu poder fez vir o vento sul!
27 Fez cair do céu carne para o seu povo;
e as aves caíam do céu numerosas como areia do mar!
28 Deus fê-las cair no meio do acampamento
e em volta das suas tendas.
29 Comeram então até ficarem bem saciados
e assim Deus satisfez os seus desejos.
30 Mas eles não souberam refrear o seu apetite;
ainda tinham a comida na boca,
31 quando a ira de Deus caiu sobre eles
e matou os mais fortes dentre eles;
abateu os melhores homens de Israel78,31 Ver Ex 16,2–15; Nm 11,4–23.31–34.!
32 Apesar de tudo isto, persistiram no pecado
e não acreditaram nas maravilhas de Deus.
33 Por isso, Deus extinguiu os seus dias como um sopro
e as suas vidas como uma ilusão.
34 Castigando Deus alguns com a morte,
os outros procuravam-no;
voltavam-se para ele e buscavam-no sem descanso.
35 Lembravam-se então que Deus era o seu protetor,
que o Deus altíssimo era o seu redentor.
36 Mas os seus propósitos eram mentirosos;
nada do que diziam era sincero.
37 Os seus corações não eram leais para com Deus
e nem fiéis à sua aliança.
38 Mas Deus, que é misericordioso,
perdoava-lhes os pecados e não os destruía;
muitas vezes desviou deles a sua ira,
e não os tratou com furor.
39 Deus lembrou-se que eles eram seres mortais,
como um sopro que passa e não volta!
40 Quantas vezes provocaram a Deus
e lhe causaram desgostos no deserto!
41 Voltavam constantemente a pôr Deus à prova;
entristeciam o Deus de Israel!
42 Não se lembravam do seu poder,
do dia em que os livrou dos inimigos;
43 quando nos campos de Soan, no Egito,
fez coisas grandes e assombrosas;
44 quando converteu em sangue os seus rios e canais,
para que os egípcios não pudessem beber deles78,44 Ver Ex 7,14–25..
45 Mandou-lhes moscas venenosas, que os devoraram78,45 Ver Ex 8,16–28.,
e rãs, que os destruíram78,45 Ver Ex 7,26—8,11..
46 Entregou as suas colheitas aos insetos
e o fruto do seu esforço aos gafanhotos78,46 Ver Ex 10,1–20..
47 Destruiu as suas vinhas com a saraiva
e os seus sicómoros com a geada.
48 Feriu os seus gados com granizo
e atingiu os seus rebanhos com os raios78,48 Ver Ex 9,13–35..
49 Descarregou contra eles a sua ira,
a indignação, o furor e a aflição,
como mensageiros de calamidade.
50 Deu livre curso à sua ira; não os livrou da morte!
Entregou as suas vidas à peste!
51 Fez morrer os primogénitos dos egípcios,
as primícias da família nas tendas de Cam78,51 Ver Ex 12,29..
52 Fez sair o seu povo
e guiou-os pelo deserto como um pastor ao seu rebanho78,52 Ver Ex 13,17–22..
53 Conduziu-os com segurança e não tiveram medo,
enquanto sepultava no mar os seus inimigos78,53 Ver Ex 14,26–28..
54 Deus levou o seu povo para a sua terra,
a montanha santa que ele mesmo conquistou78,54 Ver Ex 15,17. Referência ao monte Sião, onde seria construído o templo de Jerusalém.!
55 Retirou os pagãos da frente de Israel,
repartiu as terras deles entre as tribos
e fez com que o seu povo habitasse nas suas tendas78,55 Ver Js 11,16–23; 18,10..
56 Mas eles puseram à prova o Deus altíssimo,
revoltando-se contra ele e não observando os seus preceitos.
57 Transviaram-se, foram infiéis como os seus pais;
torceram-se como um arco falso!
58 Provocaram a sua ira com altares pagãos;
despertaram o seu ciúme, adorando ídolos.
59 Deus ouviu isto e indignou-se,
repudiando Israel com veemência.
60 Abandonou o santuário de Silo78,60 Antigo santuário dos israelitas na Palestina central, até Samuel. Ver 1 Sm 4,3.,
que era a sua morada entre os homens.
61 Permitiu que os inimigos se apoderassem da sua fortaleza,
o símbolo da sua glória78,61 Ver 1 Sm 4,4–22..
62 Estava tão irado com o seu povo,
que o deixou morrer sob a espada do inimigo.
63 O fogo devorou os seus jovens
e as donzelas ficaram por casar.
64 Os sacerdotes morreram à espada
e as suas viúvas não os puderam sepultar.
65 Mas o Senhor despertou, como de um sono,
tal como um guerreiro a quem passa o efeito do vinho.
66 Derrotou os seus inimigos e fê-los fugir;
cobriu-os de vergonha para sempre.
67 Assim abandonou a casa de José
e rejeitou a tribo de Efraim.
68 Escolheu antes a tribo de Judá
e o monte de Sião, seu preferido.
69 Construiu o seu santuário, alto como o céu
e firme para sempre, como a terra.
70 Escolheu também o seu servo David,
quando este era pastor de ovelhas;
71 retirou-o de trás dos rebanhos,
para ser pastor dos descendentes de Jacob,
que são o seu povo e a sua herança.
72 Este cuidou do seu povo com toda a retidão
e conduziu-o com muita sabedoria.