Pular para o conteúdo
Publicidade

Quebra do orgulho e perdão: como restaurar o contato

Redação Bíblia Online Publicado em

  • Publicado em .
  • Atualizado em .

Restaurar o contato começa antes da mensagem

Seis pessoas sentadas em círculo, de mãos dadas e cabeças baixas, numa sala perto de uma janela.

Restaurar o contato com alguém depois de anos de silêncio começa antes de qualquer telefonema: começa quando você para de esperar que o outro ceda primeiro. É isso que a Bíblia chama de quebra do orgulho — não a humilhação, mas a decisão de soltar a necessidade de ter razão para que o perdão tenha por onde passar.

Paulo resumiu o movimento numa frase, escrevendo para uma igreja em que as pessoas conviviam de perto e, por isso, se machucavam de perto:

Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.

Olha a ordem do versículo: suportar, perdoar, e só então a motivação — "assim como o Senhor vos perdoou". O perdão não aparece como resultado de uma conversa que deu certo. Aparece como ponto de partida. A pessoa que quer restaurar um contato perdido costuma imaginar o processo ao contrário: primeiro o outro reconhece, depois eu perdoo, depois a gente volta a se falar. Colossenses 3:13 inverte isso. O perdão vem antes, por dentro, e é ele que torna o primeiro passo possível.

O resto desta página desdobra esse caminho: por que o orgulho segura o silêncio por tanto tempo, o que o perdão é e o que ele não é, como dar o primeiro passo sem reabrir a briga, o que fazer se o outro não responder — e o que fazer quando o contato simplesmente não é possível.

Este artigo faz parte de Vida Cristã Relacionamentos

Por que o orgulho mantém o silêncio

Quase ninguém diz "estou sem falar com minha irmã por orgulho". A gente diz "ela sabe onde me encontrar", "não fui eu que comecei", "se ela quisesse, já teria ligado". Mas Provérbios dá o nome exato ao que está por baixo dessas frases:

Da soberba só

provém a contenda,

mas com os que se aconselham

se acha a sabedoria.(Provérbios 13:10)

Na tradução literal do hebraico, o versículo diz que o orgulho "só produz" contenda — como se fosse a única coisa que ele sabe fabricar. E o contraste é com quem "aceita conselho", ou seja, quem admite que não enxerga tudo sozinho. O orgulhoso não é necessariamente quem se acha superior; é quem não consegue admitir que sua versão da história pode estar incompleta.

Com o tempo, o motivo da briga perde força, mas o orgulho ganha um aliado: a vergonha. Depois de dois, cinco, dez anos, a pessoa já não lembra direito o que foi dito, mas lembra que ficou em silêncio — e romper o silêncio agora parece admitir que esteve errada o tempo inteiro. Provérbios conhece essa dinâmica também:

O irmão ofendido é mais difícil

de conquistar do que uma cidade forte;

e as contendas são como

os ferrolhos de um palácio.(Provérbios 18:19)

Uma cidade murada não cai com um empurrão. O versículo não está dizendo que a reconciliação é impossível; está dizendo que ela não vai acontecer por acaso, nem só porque o tempo passou. Alguém precisa decidir derrubar o muro, e esse alguém vai pagar o preço de parecer o mais fraco.

É exatamente aqui que a Bíblia troca o sinal. Para o mundo, ceder primeiro é perder. Para Deus, é o lugar onde a graça atua:

Antes, ele dá maior graça. Portanto diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.(Tiago 4:6)

Tiago cita Provérbios 3:34 para dizer que Deus se posiciona contra o soberbo e a favor do humilde. Vale notar que "humilde" aqui não é quem se sente pequeno, e sim quem se coloca embaixo — o verbo grego por trás da ideia é o de abaixar-se de propósito. Quem dá o primeiro passo para restaurar um contato está fazendo exatamente isso. E a promessa é que, nessa posição, ele não está sozinho.

Perdoar não é esperar o outro pedir

Antes de falar de como fazer o contato, vale tirar uma confusão comum do caminho: perdão e reconciliação não são a mesma coisa.

Perdão é o que acontece dentro de você, diante de Deus, e não depende do outro. Reconciliação é a relação restaurada, e isso depende de dois. Colossenses 3:13 manda perdoar; não manda garantir que a relação volte, porque isso ninguém pode garantir sozinho. Paulo deixa a distinção mais clara em Efésios, uma carta irmã de Colossenses:

Toda a amargura, e ira, e cólera, e gritaria, e blasfêmia e toda a malícia sejam tiradas dentre vós, Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.(Efésios 4:31,32)

Repare na lista que precede o perdão: amargura, cólera, ira, gritaria, blasfêmia, malícia. São coisas que moram em quem foi ferido, não em quem feriu. O versículo pede que você tire isso de dentro — e dá o padrão: "como também Deus vos perdoou em Cristo". Deus perdoou antes de qualquer pedido nosso; é o que Romanos 5:8 diz com todas as letras.

Isso muda a pergunta. Em vez de "ele já reconheceu o que fez?", a pergunta passa a ser "eu já soltei o que ele fez?". Uma você não controla. A outra, controla.

Jesus foi ainda mais direto quando Pedro perguntou quantas vezes era preciso perdoar — e a resposta vem seguida da parábola do servo que devia uma fortuna, foi perdoado, e depois mandou prender quem lhe devia trocados. Vale ler Mateus 18 inteiro nesse trecho: a parábola existe para mostrar que quem recebeu um perdão enorme e nega um perdão pequeno não entendeu o que recebeu.

Perdoar, então, não é dizer que não doeu. Não é esquecer. Não é fingir que a pessoa não fez o que fez. É parar de cobrar a dívida — entregá-la a Deus, que julga com mais justiça do que você conseguiria. Só depois disso dá para pensar em pegar o telefone.

Uma oração antes do primeiro passo

Se você chegou até aqui pensando numa pessoa específica, pare um minuto antes de continuar. Coloque essa pessoa, pelo nome, diante de Deus. Não para contar a Ele o que ela fez — Ele já sabe —, mas para entregar o que você ainda segura.

Senhor, o silêncio entre nós já durou tempo demais. O orgulho levantou muros e as feridas antigas ainda pesam na memória. Eu Te entrego a minha rigidez e o medo de ser rejeitado. Tira de mim a necessidade de ter razão e cura as mágoas do passado. Aquece o que esfriou pelo tempo e amolece o meu coração para o perdão sincero. Se houver espaço para reaproximação, dá-me a humildade para dar o primeiro passo em paz. Entrego essa história às Tuas mãos. Amém.

Repare no que essa oração pede e no que não pede. Ela não pede que o outro mude. Pede que Deus trabalhe em você — na rigidez, no medo, na necessidade de ter razão. É a ordem de Colossenses 3:13: primeiro o coração, depois o contato.

Como dar o primeiro passo sem reabrir a briga

Jesus tratou do assunto num contexto que pega de surpresa: no meio do culto.

Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, Deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta.(Mateus 5:23,24)

Duas coisas chamam atenção aqui. Primeira: Jesus coloca a reconciliação acima da oferta — deixe o sacrifício no altar e vá. Para um judeu do primeiro século, isso era quase um escândalo; o altar era o centro de tudo. Segunda, e mais surpreendente: o versículo fala de quando "teu irmão tem alguma coisa contra ti". Não é você que está ofendido. É o outro. E mesmo assim a iniciativa é sua.

Ou seja, Jesus não distribui a responsabilidade do primeiro passo pela culpa. Quem percebe a ruptura vai. Em Mateus 18:15 Ele diz o mesmo pelo outro lado: se o irmão pecou contra você, vá até ele. Nos dois casos, quem vai é quem está lendo o texto.

Como esse passo se parece na prática? A Bíblia não dá um roteiro, mas dá princípios que se traduzem em coisas concretas:

"Resposta branda" não é resposta fraca; é resposta que não acrescenta calor ao que já está quente. Algumas aplicações diretas disso:

  • Comece pequeno. Uma mensagem curta — "pensei em você hoje, queria saber como você está" — abre mais portas do que um texto longo explicando tudo o que você sente. O texto longo soa como argumento, e argumento pede resposta.

  • Não envie o relatório da culpa. Se a primeira mensagem já contém "eu sei que você fez isso, mas...", ela não é um primeiro passo; é a continuação da briga por outro meio.

  • Nomeie a sua parte, se houver. Quase toda ruptura longa tem culpa dos dois lados, mesmo que em proporções diferentes. Dizer "eu também fiquei em silêncio e não devia" é diferente de assumir toda a culpa; é só admitir a parte que é sua.

  • Não exija uma resposta imediata. Se a pessoa levou anos para se afastar, pode levar semanas para se aproximar. A mensagem que termina com "me responde?" coloca a pessoa contra a parede.

  • Escolha o meio certo. Para feridas profundas, uma conversa presencial ou por voz costuma ser melhor do que texto, porque o texto não carrega tom — e tom é tudo quando se tenta recuperar alguém.

Efésios 4:26-27 lembra que a ira guardada "dá lugar ao diabo" — não por superstição, mas porque o rancor que dorme com você acorda com você, e cada dia de silêncio deixa o muro mais alto. O primeiro passo não precisa ser perfeito. Precisa ser dado.

Dois exemplos: José e o filho pródigo

A Bíblia não ensina reconciliação só com mandamentos. Ela mostra pessoas fazendo isso, e em dois casos a quebra do orgulho é o centro da cena.

José e os irmãos

Os irmãos de José o venderam como escravo e disseram ao pai que ele estava morto. Vinte e tantos anos depois, José é o segundo homem mais poderoso do Egito, e eles aparecem na frente dele pedindo comida — sem reconhecê-lo. Se existe alguém na Bíblia com o direito de ter razão, é José. Ele podia prendê-los, humilhá-los, ou simplesmente mandá-los embora sem nunca dizer quem era.

Em vez disso, ele manda todos os egípcios saírem da sala, chora alto e se revela. A cena inteira está em Gênesis 45. O que ele diz a eles mostra o que tinha acontecido por dentro:

Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida.(Gênesis 50:20)

José não nega que houve mal — "vós intentastes o mal". Ele não diz "não foi nada". O que ele faz é colocar o mal dentro de uma história maior, em que Deus estava trabalhando mesmo quando os irmãos estavam pecando. Isso não é ingenuidade; é fé. E foi essa leitura da própria história que permitiu a ele dar o primeiro passo com quem o tinha ferido. Quem não consegue ver Deus em nada do que aconteceu dificilmente vai conseguir perdoar.

O pai do filho pródigo

Em Lucas 15, o filho mais novo pede a herança antecipada — o que, na cultura da época, equivalia a dizer "para mim você já morreu" — e vai embora. Gasta tudo, passa fome, decide voltar. O que ele espera é, no máximo, um emprego de servo. O que encontra é isto:

E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.(Lucas 15:20)

"Ainda longe" — o pai não esperou o filho chegar à porta e pedir desculpa. Ele correu. Um patriarca do Oriente Médio não corria; era indigno. O pai se cobriu de ridículo na frente da aldeia inteira para chegar ao filho antes que o filho precisasse rastejar até ele. A parábola completa está em Lucas 15, e vale ler até o fim, porque o filho mais velho — o que ficou em casa e se recusa a entrar na festa — é o retrato do orgulho que não quebra.

Idoso descalço corre de braços abertos por estrada de terra; ao longe, um homem se aproxima.

Jesus contou essa história para descrever Deus. Mas quem quer restaurar um contato aprende duas coisas com ela: o pai não exigiu o discurso de arrependimento antes do abraço, e o filho precisou dar o primeiro passo mesmo sem saber como seria recebido. Reconciliação tem os dois movimentos.

E se o outro não responder?

Esta é a parte que ninguém gosta de ler, mas que a Bíblia não esconde: você pode fazer tudo certo e a resposta não vir. Paulo sabia disso quando escreveu aos romanos:

Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens.(Romanos 12:18)

"Se for possível" e "quanto depender de vós" são duas ressalvas no mesmo versículo. Paulo não está sendo pessimista; está sendo honesto. Ele mesmo teve rupturas que não se resolveram do jeito que queria — Atos 15:36-41 conta como ele e Barnabé se separaram por causa de Marcos, e o texto não diz que se reconciliaram naquele momento. (Anos depois, Paulo pede que Marcos venha vê-lo, em 2 Timóteo 4:11 — o que sugere que a história não parou ali.)

O que depende de você é o perdão e a mão estendida. O que não depende de você é a mão do outro. Hebreus 12:14 manda "seguir a paz com todos" — o verbo é de perseguição, de correr atrás —, mas correr atrás não é alcançar. Se você perdoou de coração, pediu perdão pela sua parte e deixou a porta aberta, você fez o que a Bíblia pede. O silêncio que continua já não é o seu silêncio.

Isso não significa fechar a porta de volta. Significa parar de bater nela todo dia. Uma mensagem no aniversário, uma palavra num momento difícil da família, a disposição visível de recomeçar quando o outro quiser — isso mantém a porta aberta sem transformar a sua vida numa espera. E a oração continua, porque o que a sua mensagem não alcança, Deus alcança.

Quando o contato não é possível ou não é prudente

Há situações em que restaurar o contato não é opção. A pessoa morreu. Mudou e ninguém sabe onde está. Ou — e isso precisa ser dito com clareza — a relação era abusiva, e voltar a ela colocaria você ou outros em risco.

Nesses casos, o perdão continua sendo possível, porque ele acontece em você. A reconciliação não. E a Bíblia não confunde as duas coisas. Jesus mandou os discípulos serem "prudentes como as serpentes" (Mateus 10:16), e Provérbios está cheio de conselhos para não se expor a quem já mostrou que fere. Perdoar quem abusou de você não é obrigação de voltar a conviver com essa pessoa. Perdoar é entregar a dívida a Deus; conviver é outra decisão, que pede sabedoria e, muitas vezes, ajuda de gente preparada para isso.

Paulo coloca o perdão ao lado da justiça de Deus justamente para que ninguém pense que perdoar é fingir que nada aconteceu. Leia Romanos 12 nesse trecho: "não vos vingueis" vem com "minha é a vingança, diz o Senhor". Você solta a cobrança porque alguém mais justo do que você fica com ela.

Quando a pessoa já morreu, o perdão costuma vir misturado com luto: pelo que aconteceu e pelo que não vai mais acontecer. Aqui vale levar a Deus, em oração, o que você diria àquela pessoa se pudesse. Não porque ela ouve, mas porque Deus ouve — e porque o que você precisa soltar não deixa de precisar ser solto só porque não há mais a quem dizer.

De volta a Colossenses 3

Paulo não escreveu Colossenses 3:13 sozinho; ele vem no meio de uma lista de roupas. O versículo 12 manda "revestir-se" de misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência; o 13 é o que essas roupas fazem quando vestidas; o 14 coloca o amor por cima de tudo, "como vínculo da perfeição"; e o 15 pede que a paz de Cristo governe o coração. Leia Colossenses 3 inteiro nesses quatro versículos antes de pegar o telefone.

Porque é isso que o perdão é, no fim das contas: não uma técnica para resolver uma briga, e sim o jeito de se vestir de quem foi perdoado por Cristo. Quem se veste assim ainda pode levar um não. Mas não vai mais carregar o muro.

Preciso pedir perdão mesmo se a culpa foi do outro?

Mateus 5:23-24 e Mateus 18:15 colocam a iniciativa do primeiro passo em quem percebe a ruptura, seja ele o ofendido ou o ofensor. Isso não significa assumir uma culpa que não é sua; significa não condicionar o contato ao reconhecimento do outro. Se você também contribuiu com silêncio ou palavras duras, nomear essa parte abre caminho. Se não contribuiu, o primeiro passo pode ser só a mão estendida, sem pedido de perdão.

Perdoar é o mesmo que voltar a confiar?

Não. O perdão é entregue de uma vez, por decisão; a confiança é reconstruída com o tempo, pela conduta. José perdoou os irmãos em Gênesis 45, mas antes disso os testou por um bom tempo (Gênesis 42-44). Perdoar remove a dívida; confiar depende de ver que a pessoa mudou. É possível perdoar completamente e, ainda assim, reconstruir a convivência aos poucos.

Quanto tempo devo esperar depois de dar o primeiro passo?

A Bíblia não fixa prazo, mas Romanos 12:18 lembra que a reconciliação depende de dois lados. Se a pessoa levou anos para se afastar, uma resposta pode demorar semanas ou meses. Dê espaço, mantenha a porta visivelmente aberta em datas e momentos importantes, e não transforme a espera numa cobrança. Enquanto isso, continue orando — o que a sua mensagem não alcança, Deus alcança.

E se a pessoa que me feriu já morreu?

O perdão continua sendo possível, porque acontece em você, diante de Deus, e não depende de o outro ouvir. O que não é possível é a reconciliação, e isso costuma trazer luto. Leve a Deus em oração o que você diria àquela pessoa, e entregue a dívida a Ele, como Romanos 12:19 orienta. Soltar o rancor não deixa de ser necessário só porque não há mais a quem dizer.

Deus exige que eu volte a conviver com alguém que me abusou?

Não. A Bíblia manda perdoar, não manda se expor novamente a quem fere. Jesus pediu prudência (Mateus 10:16), e Provérbios insiste em evitar quem já mostrou que machuca. Perdoar entrega a dívida a Deus; conviver é outra decisão, que exige sabedoria e, em casos de abuso, acompanhamento de pessoas preparadas. Perdão e distância podem coexistir.

Silvia Forti
1 pessoa deu Amém

Este artigo te tocou? Faça uma oração!

+581 estão orando agora.

Junte-se à corrente de oração.