Porque antes do meu pão vem o meu suspiro; e os meus gemidos se derramam como água.

Se, como Adão, encobri as minhas transgressões, ocultando o meu delito no meu seio;

De longe trarei o meu conhecimento; e ao meu Criador atribuirei a justiça.

Ah! terra, não cubras o meu sangue e não haja lugar para ocultar o meu clamor!

Mas agora contas os meus passos; porventura não vigias sobre o meu pecado?

As minhas razões provam a sinceridade do meu coração, e os meus lábios proferem o puro saber.

Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te vêem os meus olhos.

O meu hálito se fez estranho à minha mulher; tanto que supliquei o interesse dos filhos do meu corpo.

Eis que tudo isto viram os meus olhos, e os meus ouvidos o ouviram e entenderam.

Vê-lo-ei, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior.

Se os meus passos se desviaram do caminho, e se o meu coração segue os meus olhos, e se às minhas mãos se apegou qualquer coisa,

Os meus dias passaram, e malograram os meus propósitos, as aspirações do meu coração.

Sucedeu que, acabando o Senhor de falar a Jó aquelas palavras, o Senhor disse a Elifaz, o temanita: A minha ira se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó.

O meu espírito se vai consumindo, os meus dias se vão apagando, e só tenho perante mim a sepultura.

Ah! quem me dera um que me ouvisse! Eis que o meu desejo é que o Todo-Poderoso me responda, e que o meu adversário escreva um livro.

Se o meu coração se deixou seduzir por uma mulher, ou se eu armei traições à porta do meu próximo,

Porque Deus macerou o meu coração, e o Todo-Poderoso me perturbou.

Porque estou cheio de palavras; o meu espírito me constrange.

E disse o Senhor a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal.

Também pões os meus pés no tronco, e observas todos os meus caminhos, e marcas os sinais dos meus pés.

Sobrevieram-me o espanto e o tremor, e todos os meus ossos estremeceram.

Vida e misericórdia me concedeste; e o teu cuidado guardou o meu espírito.

Porém ele sabe o meu caminho; provando-me ele, sairei como o ouro.

Os meus parentes me deixaram, e os meus conhecidos se esqueceram de mim.

E dizia: No meu ninho expirarei, e multiplicarei os meus dias como a areia.

Ou se, sozinho comi o meu bocado, e o órfão não comeu dele

Para te informares da minha iniqüidade, e averiguares o meu pecado?

Embora haja eu, na verdade, errado, comigo ficará o meu erro.

O número dos meus passos lhe mostraria; como príncipe me chegaria a ele.

Porque Jó disse: Sou justo, e Deus tirou o meu direito.

Sobre isto também treme o meu coração, e salta do seu lugar.

Por certo que o levaria sobre o meu ombro, sobre mim o ataria por coroa.

De noite se me traspassam os meus ossos, e os meus nervos não descansam.

Se andei com falsidade, e se o meu pé se apressou para o engano

Ou não vê ele os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?

Seja como o ímpio o meu inimigo, e como o perverso o que se levantar contra mim.

Então caia do ombro a minha espádua, e separe-se o meu braço do osso.

Porque não sei usar de lisonjas; em breve me levaria o meu Criador.

Quem dera que se cumprisse o meu desejo, e que Deus me desse o que espero!

Quantas culpas e pecados tenho eu? Notifica-me a minha transgressão e o meu pecado.

Eu ouvi a repreensão, que me envergonha, mas o espírito do meu entendimento responderá por mim.

Ali o reto pleitearia com ele, e eu me livraria para sempre do meu Juiz.

Tomai, pois, sete bezerros e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei holocaustos por vós, e o meu servo Jó orará por vós; porque deveras a ele aceitarei, para que eu não vos trate conforme a vossa loucura; porque vós não falastes de mim o que era reto como o meu servo Jó.

Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando eles contendiam comigo;

Porventura também tornarás tu vão o meu juízo, ou tu me condenarás, para te justificares?

Os meus amigos são os que zombam de mim; os meus olhos se desfazem em lágrimas diante de Deus.

Pelo que já se escureceram de mágoa os meus olhos, e já todos os meus membros são como a sombra.

Lembra-te de que a minha vida é como o vento; os meus olhos não tornarão a ver o bem.

Porque Deus desatou a sua corda, e me oprimiu, por isso sacudiram de si o freio perante o meu rosto.

Há porventura iniqüidade na minha língua? Ou não poderia o meu paladar distinguir coisas iníquas?