Como reconhecer se Jesus de Nazaré é de fato o Messias prometido nas Escrituras de Israel? Essa é a questão que atravessa todos os 28 capítulos do Evangelho de Mateus. Posicionado estrategicamente na abertura do Novo Testamento, o livro funciona como uma ponte viva entre as antigas promessas e a nova aliança, demonstrando passo a passo que a história de Jesus não rompe com a fé de Israel, mas a conduz ao seu cumprimento definitivo.
O texto em si é anônimo, como todos os quatro evangelhos. Desde a primeira metade do segundo século, a tradição da igreja atribui o relato a Mateus, também chamado Levi, o cobrador de impostos que se tornou apóstolo. No debate acadêmico contemporâneo, discute-se se o livro foi redigido diretamente por ele ou por uma comunidade de cristãos de origem judaica que preservou suas memórias e ensinamentos. A datação mais aceita situa a obra entre os anos 60 e 85 d.C. O público original era claramente familiarizado com as Escrituras hebraicas, a língua e os costumes judaicos, dispensando explicações culturais detalhadas que outros evangelhos costumam incluir.
A ideia central do livro é que Jesus é o Messias e Rei prometido da linhagem de Davi, que cumpre a Lei e os Profetas e inaugura o Reino dos Céus, convocando uma nova comunidade formada por judeus e gentios sob a sua autoridade.
Think not that I am come to destroy the law, or the prophets: I am not come to destroy, but to fulfil.
Como o livro se divide
A narrativa de Mateus combina seções de acontecimentos com cinco grandes discursos de instrução, cada um encerrado pela fórmula "quando Jesus acabou de dizer estas coisas". O texto pode ser compreendido em seis blocos principais:
A chegada do Rei (capítulos 1 a 4): Estabelece a identidade de Jesus por meio de sua genealogia ligada a Abraão e Davi, do nascimento virginal, do batismo e da vitória sobre as tentações no deserto, marcando o início da proclamação do Reino.
A constituição do Reino (capítulos 5 a 7): O Sermão da Montanha, primeiro grande bloco de ensino, onde Jesus redefine a justiça, a oração e o caráter dos cidadãos do Reino, aprofundando o espírito dos mandamentos.
Autoridade e envio (capítulos 8 a 10): Uma sequência de dez milagres que demonstram o poder curador e libertador de Jesus sobre enfermidades, natureza e espíritos, seguida pela instrução e envio dos doze apóstolos em missão.
Confronto e mistérios do Reino (capítulos 11 a 13): A oposição religiosa cresce e João Batista expressa dúvidas. Diante da rejeição das cidades, Jesus passa a ensinar o funcionamento e o crescimento do Reino por meio de parábolas.
A comunidade do Reino e o caminho da cruz (capítulos 14 a 20): Pedro confessa que Jesus é o Cristo. A partir daí, Jesus anuncia abertamente sua morte iminente e instrui os discípulos sobre humildade, perdão e liderança servil.
Conflito final, paixão e ressurreição (capítulos 21 a 28): A entrada triunfal em Jerusalém, o confronto com as autoridades religiosas no Templo, a profecia sobre o juízo futuro, a crucificação e a vitória final sobre a morte, concluindo com o envio dos discípulos a todas as nações.
O que observar durante a leitura
Ao ler Mateus, note a expressão recorrente "para que se cumprisse o que foi dito". O autor cita ou alude ao Antigo Testamento dezenas de vezes, mostrando que cada etapa da trajetória de Jesus — do local de nascimento à fuga para o Egito e à sua morte — estava anunciada pelos profetas.
Observe também o uso preferencial da expressão "Reino dos Céus" em vez de "Reino de Deus". O termo reflete a reverência judaica de evitar o uso direto do nome divino, sem alterar o sentido do reinado soberano do Criador.
Outro elemento marcante é o paralelo implícito entre Jesus e Moisés. Assim como Moisés subiu ao monte Sinai para receber a Lei, Jesus sobe ao monte em Mateus 5 para ensinar com autoridade própria: "Vocês ouviram o que foi dito... eu, porém, lhes digo".
Por fim, repare na amplitude da missão. Embora Jesus afirme em um primeiro momento ter sido enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mateus 15:24), o livro se abre com mulheres estrangeiras na genealogia (Mateus 1:3-6), recebe magos do Oriente no nascimento (Mateus 2:1-2) e se encerra com a ordem categórica de fazer discípulos de todas as nações (Mateus 28:19).
Por onde começar
Se você deseja acompanhar a narrativa completa e ver as profecias se encaixando no nascimento e ministério de Cristo, comece pelo capítulo 1. Caso prefira entrar diretamente no coração do ensino ético e espiritual de Jesus, leia a partir do Sermão da Montanha, no capítulo 5.
Em qualquer ponto de partida, Mateus responde à pergunta que abre suas páginas: nas palavras, nas obras e na ressurreição de Jesus, a esperança anunciada séculos antes encontrou o seu cumprimento.