Quem decidiu quais livros entrariam na Bíblia? A História do Cânon Bíblico

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A pergunta sobre quem decidiu quais livros entrariam na Bíblia costuma gerar dúvidas, debates e até desconfiança. Para muitos, o cânon bíblico parece resultado de decisões políticas ou de concílios tardios da igreja.

No entanto, à luz da história, da teologia e da fé cristã evangélica, a formação do cânon revela um processo muito mais antigo, criterioso e coerente. A Bíblia que temos hoje não surgiu por acaso nem foi inventada por uma instituição, mas foi reconhecida progressivamente como Palavra de Deus ao longo da história da revelação.

O que significa “cânon bíblico”?

A palavra “cânon” vem do grego kanón, que significa “regra”, “padrão” ou “medida”. No contexto cristão, o cânon bíblico é o conjunto de livros reconhecidos como inspirados por Deus e, portanto, autoritativos para a fé e a prática cristã.

É fundamental compreender que o cânon não foi criado pela igreja, mas reconhecido por ela. A autoridade dos livros bíblicos não dependeu de uma decisão humana posterior; ela está ligada à própria inspiração divina (2 Timóteo 3:16). A igreja apenas reconheceu aquilo que Deus já havia revelado.

16 Al de Schrift is van God ingegeven, en is nuttig tot lering, tot wederlegging, tot verbetering, tot onderwijzing, die in de rechtvaardigheid is;

Como o Antigo Testamento foi formado?

No caso do Antigo Testamento, estamos lidando com um cânon judaico, formado muito antes do surgimento da igreja cristã. Os judeus reconheciam as Escrituras como Palavra de Deus com base na atuação profética e na preservação histórica da revelação.

Já no período pós-exílio (século V a.C.), os livros da Lei (Torá) eram plenamente reconhecidos como Escritura. Os Profetas e os Escritos foram sendo confirmados ao longo dos séculos seguintes. No tempo de Jesus, o cânon hebraico já estava essencialmente definido.

O próprio Cristo confirma essa estrutura ao mencionar “a Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos” (Lucas 24:44), uma referência clara às três divisões do Antigo Testamento hebraico. Além disso, Jesus e os apóstolos citam abundantemente esses livros como autoridade divina, sem jamais questionar seu conteúdo.

44 En Hij zeide tot hen: Dit zijn de woorden, die Ik tot u sprak, als Ik nog met u was, namelijk dat het alles moest vervuld worden, wat van Mij geschreven is in de Wet van Mozes, en de Profeten, en Psalmen.

Importante destacar que livros conhecidos como apócrifos ou deuterocanônicos, embora existentes nesse período, nunca foram reconhecidos como Escritura pelo judaísmo e não são citados por Jesus ou pelos apóstolos como Palavra de Deus.

O Novo Testamento: autoridade apostólica

O cânon do Novo Testamento começou a se formar ainda no século I d.C., durante a vida e o ministério dos apóstolos. Diferente de uma decisão institucional tardia, os escritos apostólicos foram reconhecidos desde cedo por sua autoridade espiritual.

As cartas de Paulo, por exemplo, já circulavam entre as igrejas e eram lidas publicamente no culto cristão (Colossenses 4:16).

16 En wanneer deze zendbrief van u zal gelezen zijn, maakt, dat hij ook in de gemeente der Laodicensen gelezen worde, en dat ook gij dien leest, die uit Laodicea geschreven is.

O apóstolo Pedro chega a se referir às cartas paulinas como “Escrituras” (2 Pedro 3:15,16), colocando-as no mesmo nível do Antigo Testamento.

Os Evangelhos foram reconhecidos com base em sua ligação direta com testemunhas oculares ou com seus colaboradores próximos:

1. Mateus e João: apóstolos

2. Marcos: associado a Pedro

3. Lucas: companheiro de Paulo

Escritos que surgiram mais tarde, especialmente a partir do século II, como os chamados “evangelhos gnósticos”, foram rejeitados por não possuírem autoria apostólica, apresentarem doutrinas incompatíveis com o ensino de Cristo e não serem aceitos amplamente pelas igrejas.

Quais critérios foram usados para reconhecer os livros bíblicos?

Para distinguir os livros inspirados dos escritos comuns (ou falsos), a igreja primitiva utilizou quatro filtros principais:

1. Apostolicidade: O livro foi escrito por um apóstolo ou alguém diretamente ligado a eles?

2. Ortodoxia: O ensino está em harmonia com o restante das Escrituras e os ensinos de Jesus?

3. Universalidade: O livro era lido e aceito por quase todas as igrejas cristãs da época?

4. Autoridade Espiritual: O texto demonstra o "sopro de Deus" e poder para transformar vidas?

Esses critérios explicam por que certos livros foram reconhecidos e outros não, sem a necessidade de teorias conspiratórias.

O papel dos concílios

Concílios como o de Hipona (393 d.C.) e Cartago (397 d.C.) são frequentemente citados como se tivessem “decidido” a Bíblia. Na realidade, esses encontros apenas confirmaram oficialmente os livros que já eram amplamente reconhecidos e utilizados pelas igrejas.

Essas listas surgiram em um contexto de crescimento do cristianismo e de proliferação de escritos alternativos, tornando necessário registrar formalmente quais livros possuíam autoridade apostólica. Nenhum concílio adicionou novos livros à Bíblia nem concedeu inspiração a textos existentes.

Do ponto de vista evangélico, a autoridade do cânon não está nos concílios, mas na ação soberana de Deus em preservar Sua Palavra ao longo da história.

Por que alguns livros ficaram de fora?

Livros como o "Evangelho de Tomé" ou o "Evangelho de Judas" (textos gnósticos) foram rejeitados porque:

1. Surgiram muito tarde (séculos II e III).

2. Não possuíam autoria apostólica real (pseudonímia).

3. Contradiziam o ensino de Jesus (ex: negavam a ressurreição física ou a criação do mundo por Deus).

Esses textos não foram removidos da Bíblia; simplesmente nunca foram reconhecidos como Escritura.

Conclusão

Os livros que compõem a Bíblia foram reconhecidos ao longo da história por sua origem divina, autoridade apostólica e coerência doutrinária. O cânon bíblico não é resultado de decisões arbitrárias, mas de um processo histórico sólido, enraizado na revelação de Deus e confirmado pela experiência da igreja.

Compreender como o cânon foi formado fortalece a confiança nas Escrituras e ajuda a desfazer mitos que cercam a Bíblia. Para o cristão evangélico, a Bíblia permanece sendo a Palavra viva de Deus, fiel, preservada e suficiente para a fé e a vida.

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