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Reino dos céus: o que é e quem faz parte dele

Redação Bíblia Online Publicado em

O que é o Reino dos céus

Homem com avental de ferramentas entrega sacolas de compras a uma idosa na calçada.

O Reino dos céus é Deus governando — não um lugar no mapa, nem o céu para onde a pessoa vai depois de morrer, mas o reinado de Deus entrando no mundo na pessoa de Jesus. Faz parte dele quem se arrepende e passa a viver debaixo desse governo: na linguagem de Mateus, os "pobres em espírito", os que se tornam como crianças, os que fazem a vontade do Pai em vez de só falar dele.

Olha como Jesus começa. Depois do batismo e da tentação no deserto, Mateus resume a pregação dele numa única frase — a mesma que João Batista vinha anunciando às margens do Jordão:

Daí em diante Jesus começou a pregar e a dizer:

— Arrependam-se, porque está próximo o Reino dos Céus.…

Duas coisas nessa frase. A primeira: o Reino "está próximo". O verbo grego (engiken) quer dizer que chegou perto, que está na porta. Jesus não descreve uma realidade distante; anuncia algo que começou com a chegada dele. A segunda: a resposta pedida é arrepender-se — mudar de direção, voltar o rosto para Deus. É essa a porta de entrada, e tudo o que Jesus diz depois sobre o Reino desdobra essa frase.

A expressão "Reino dos céus" é marca registrada de Mateus. Aparece mais de trinta vezes no evangelho dele e em nenhum outro livro da Bíblia. Marcos, Lucas, João e Paulo dizem "Reino de Deus" para falar exatamente da mesma coisa — e vale entender por que Mateus trocou a palavra, porque a troca já ensina algo sobre o que o Reino é.

Este artigo faz parte de Ensinamentos de Jesus Reino de Deus

"Reino dos céus" e "Reino de Deus" são a mesma coisa?

São. A prova mais simples está no próprio Mateus. Em Mateus 19.23, Jesus diz que é difícil um rico entrar no "Reino dos céus"; no versículo seguinte, 19.24, repete a ideia com a imagem do camelo e da agulha e fala de entrar no "Reino de Deus". Mesma conversa, mesmo fôlego, duas expressões. Quem conta as ocorrências percebe que Mateus usa "Reino de Deus" só umas quatro vezes, sempre no mesmo sentido.

Por que então ele prefere "céus"? Porque escreve para leitores judeus, e a piedade judaica da época evitava pronunciar o nome de Deus à toa. "Céu" virou uma forma respeitosa de dizer "Deus". Dá para ver isso em outros lugares da Bíblia: o filho pródigo diz "pequei contra o céu" (Lucas 15.18), e Daniel fala ao rei da Babilônia que "o céu governa" (Daniel 4.26). Ninguém ali está falando de nuvens. Está falando de Deus.

Isso desfaz um mal-entendido comum. Como a palavra "céus" aparece no nome, muita gente lê "Reino dos céus" como sinônimo de "o céu", o lugar para onde os salvos vão. Mas o Reino dos céus é o reinado de quem está nos céus — e esse reinado, como a oração do Pai-nosso vai mostrar, vem para a terra.

Vale dizer também o que "reino" significa. A palavra grega basileia, como o hebraico malkut, aponta primeiro para o ato de reinar — o governo, a autoridade exercida — e só em segundo lugar para o território governado. Quando o salmista diz que "o seu reino domina sobre tudo" (Salmos 103.19), não está medindo fronteiras; está dizendo que Deus manda. Por isso é melhor traduzir mentalmente "Reino dos céus" por "o reinado de Deus" sempre que a expressão aparecer.

Uma observação de honestidade: existe uma corrente evangélica, o dispensacionalismo clássico — o da Bíblia de Scofield, do começo do século XX —, que distingue as duas expressões: "Reino dos céus" seria o reino messiânico prometido a Israel, e "Reino de Deus" o governo universal de Deus. É uma leitura respeitável, mas minoritária hoje, inclusive entre dispensacionalistas mais recentes. A maioria dos intérpretes evangélicos, católicos e protestantes históricos lê as expressões como sinônimos, e é essa a premissa desta página.

Antes de Jesus: o Reino no Antigo Testamento

Jesus não inventou a ideia de Reino. Quando ele disse "está próximo", seus ouvintes já sabiam de que Reino se tratava, porque o Antigo Testamento inteiro é a história de um Deus que reina — e de um povo esperando que esse reinado se mostre por completo.

A nota começa cedo. Logo depois da travessia do mar, Israel canta: "O Senhor reinará eterna e perpetuamente" (Êxodo 15.18). Os Salmos repetem isso em todos os tons: "O Senhor reina" (Salmos 93.1), "Deus é o Rei de toda a terra" (Salmos 47.7). O Salmo 145 é talvez o mais bonito deles, porque liga o reinado de Deus à bondade dele: as pessoas falam "da glória do teu reino" porque viram o Senhor sustentar os que caem e alimentar os que têm fome. É um reino que se reconhece pelo cuidado, não pela ameaça. Leia os versículos 11 a 13 em Salmos 145 e repare que o reino "dura por todas as gerações".

O problema é que Israel também teve reis humanos, e a história deles terminou mal. Saul, Davi, Salomão, depois uma fila de reis que levaram o povo à idolatria e ao exílio. Foi no meio dessa decepção que os profetas começaram a falar de um reino vindouro, diferente de qualquer outro.

Daniel é a voz mais clara. No capítulo 2, ele interpreta o sonho de Nabucodonosor: uma pedra, cortada sem mãos humanas, desfaz a estátua dos impérios e cresce até encher a terra — "o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído" (Daniel 2.44). No capítulo 7, os impérios aparecem como feras saindo do mar, e então "um como o Filho do Homem" recebe de Deus um domínio eterno. E o reino não fica só com ele:

Repare na palavra "receberão". Os santos não conquistam o reino; recebem. E "possuirão para sempre" — a mesma permanência do Salmo 145. Essas duas passagens, Daniel 2 e 7, moldaram a expectativa judaica no tempo de Jesus. Quando ele se chamava de "Filho do Homem" e falava de Reino, estava tocando exatamente nesse nervo.

Só que a expectativa popular tinha ficado muito política. Reino, para muitos, queria dizer Roma expulsa, Israel no poder, um Messias com exército. É nesse ambiente que João Batista aparece.

"Está próximo": o anúncio de João, de Jesus e dos discípulos

Mateus faz questão de mostrar a mesma frase saindo de três bocas. Primeiro João Batista, no deserto da Judeia, com roupa de pelo de camelo e uma mensagem só: arrependam-se, o Reino dos céus está próximo. Está em Mateus 3, e é com ela que o capítulo abre.

Depois Jesus, em Mateus 4.17 — o versículo que abre esta página. E por fim os doze discípulos, quando Jesus os envia pelas vilas de Israel: "preguem que está próximo o Reino dos céus", em Mateus 10. Três vezes a mesma sentença. Mateus quer que a gente entenda que essa é a mensagem — tudo o mais é comentário dela.

O que significa "próximo"? A palavra pode confundir, porque em português "próximo" às vezes quer dizer "ainda não chegou". Mas o grego engiken é um verbo no perfeito: algo que se aproximou e agora está aqui, ao alcance. Marcos registra a versão completa da frase: "O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo" (Marcos 1.15). Um tempo cumprido não é um tempo que ainda vem.

O próprio Jesus tira a dúvida mais adiante. Quando os fariseus dizem que ele expulsa demônios pelo poder do diabo, ele responde: "Se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, logo é chegado a vós o Reino de Deus" (Mateus 12.28). Aqui não há "próximo": é "chegado". Onde Jesus age, Deus está reinando. E em outra ocasião, aos que queriam sinais: "o Reino de Deus está entre vocês" (Lucas 17.21) — porque o Rei estava ali, no meio deles.

Então o Reino, nos evangelhos, chega com Jesus. Não é primeiro uma doutrina nem uma instituição; é uma pessoa fazendo o que só Deus faz — curando, perdoando, mandando no mal — e chamando gente para se submeter a esse governo.

Isso explica também a resposta a Pilatos: "O meu Reino não é deste mundo" (João 18.36). Jesus não está dizendo que o Reino não tem nada a ver com a terra; está dizendo de onde ele vem e como ele funciona. Não é um reino que nasce de baixo, por conspiração ou espada — "se fosse, os meus servos lutariam". Vem de cima, e por isso não se impõe do jeito que os reinos daqui se impõem.

Já chegou ou ainda vai chegar? O "já" e o "ainda não"

Essa é a pergunta que mais confunde, e a resposta honesta é: as duas coisas. O Reino já chegou em Jesus, e ainda não chegou por completo. A Bíblia sustenta os dois lados sem constrangimento, e o lugar onde isso fica mais visível é a oração que Jesus ensinou:

"તો, પછી, તમારે આ રીતે પ્રાર્થના કરવી જોઈએ:

" ‘સ્વર્ગમાંના અમારા પિતા,

તમારું નામ પવિત્ર મનાઓ.

તમારું રાજ્ય આવો,

તમારી ઈચ્છા પૂરી થાઓ,

જેમ સ્વર્ગમાં તેમ પૃથ્વી પર,(માથ્થી 6:9,10)

Se o Reino já estivesse inteiro aqui, não faria sentido pedir que ele venha. Jesus manda os discípulos orarem "venha o teu Reino" — e, na oração, o Reino vindo e a vontade de Deus sendo feita "assim na terra como no céu" são a mesma coisa dita duas vezes. O Reino é a terra ficando parecida com o céu. Não é a gente fugindo da terra para o céu.

Agora olha outro lado da mesma moeda. Quando um oficial romano demonstra uma fé que Jesus não tinha visto em Israel, Jesus aponta para um banquete futuro:

હું તમને કહું છું કે ઘણાં લોકો પૂવઁથી અને પશ્વિમથી આવશે અને સ્વર્ગના રાજ્યમાં અબ્રાહમ, ઇસહાક અને યાકોબની સાથે પવઁમા બેસશે,(માથ્થી 8:11)

Esse "reclinar-se à mesa" com Abraão, Isaque e Jacó é uma cena do fim — o banquete que Isaías 25.6 prometia, com Deus servindo a todos os povos no seu monte. É o Reino ainda por vir, na forma plena. E Jesus, na última ceia, fala do dia em que beberá o vinho "de novo com vocês no Reino de meu Pai" (Mateus 26.29). Ele mesmo ainda esperava algo.

Os teólogos evangélicos chamam isso de "escatologia inaugurada" ou "já e ainda não" — a expressão ficou conhecida pelo trabalho de George Ladd, mas a ideia é antiga. O Reino foi inaugurado na vinda de Jesus, está presente onde ele reina pela fé, e será consumado quando ele voltar. Paulo escreve dos dois jeitos no mesmo fôlego: já fomos "transportados para o Reino do Filho do seu amor" (Colossenses 1.13), e ainda esperamos a herança.

Há quem desarme essa tensão puxando para um só lado. O dispensacionalismo clássico tende a ver o Reino como adiado: Israel rejeitou o Rei, então o Reino propriamente dito só vem no futuro, e a igreja vive num parêntese. No outro extremo, uma leitura chamada "escatologia realizada", associada ao estudioso inglês C. H. Dodd, diz que o Reino se cumpriu inteiro em Jesus e não há mais nada a esperar. A leitura desta página — que é a da maior parte da teologia evangélica histórica — fica no meio, porque é onde o texto fica: "venha o teu Reino" e "é chegado o Reino" saem da mesma boca.

Por que isso importa para quem lê? Porque explica a vida cristã como ela é. Quem crê já experimenta perdão, já conhece o Rei, já tem o Espírito — e ainda adoece, ainda chora, ainda vê injustiça. O "já" impede o desespero. O "ainda não" impede a mentira de que tudo já deveria estar resolvido.

Como o Reino cresce: o grão de mostarda e o fermento

Se o Reino é Deus reinando, por que ele não chegou com estardalhaço? Era a pergunta das pessoas em volta de Jesus, que esperavam exército e trono. Ele responde com duas imagens da cozinha e da horta, e as duas dizem a mesma coisa de ângulos diferentes.

Jesus contou-lhes outra parábola:

— O reino dos céus se assemelha a um grão de mostarda que um homem semeou no seu campo. Embora seja a menor entre todas as sementes, quando cresce é uma das maiores hortaliças e se torna uma árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer ninhos nos seus ramos.(માથ્થી 13:31,32, NVI)

Repare na desproporção. A mostarda tinha fama de ser a menor semente que um lavrador da Galileia plantava — do tamanho de um grão de areia grossa — e o pé chega a dois ou três metros, alto o bastante para pássaro fazer ninho. O ponto não é botânica; é a distância entre o começo e o fim. O Reino começa num tamanho que ninguém leva a sério. Um carpinteiro de Nazaré e doze homens comuns. E termina como uma árvore em que as aves se aninham — imagem que Ezequiel 17.23 e Daniel 4.12 usavam para reinos que dão abrigo aos povos.

A segunda imagem é ainda mais caseira:

Jesus contou-lhes ainda outra parábola:

— O reino dos céus é como o fermento que uma mulher pegou e misturou com três satos de farinha, e toda a massa ficou fermentada.(માથ્થી 13:33, NVI)

Três medidas de farinha dão algo em torno de quarenta litros — massa para alimentar mais de cem pessoas. E a porção de fermento que a mulher mistura é pequena, invisível depois de amassada. Ninguém vê o fermento trabalhar. Mas, horas depois, a massa inteira cresceu. É assim que o Reino age: de dentro, em silêncio, até que tudo esteja "fermentado".

Vale notar uma coisa: na Bíblia, o fermento quase sempre é imagem negativa — o "fermento dos fariseus" (Mateus 16.6), o "fermento da maldade" (1 Coríntios 5.8). Jesus pega um símbolo usado para o mal que se espalha e o vira do avesso: agora é o bem que se espalha. Isso é típico dele. O Reino inverte o esperado.

As duas parábolas respondem à pergunta de quem olha para o mundo e não vê Deus governando coisa nenhuma. Jesus diz: olhe de novo, e olhe para o fim. O que começou pequeno não vai ficar pequeno.

Quanto vale o Reino: o tesouro e a pérola

Depois de falar do tamanho, Jesus fala do preço. E usa duas histórias de gente que descobre algo que vale mais do que tudo o que tem.

"સ્વર્ગનું રાજ્ય ખેતરમાં સંતાડેલા દ્રવ્ય જેવું છે. જયારે એક માણસને તે મળ્યું તેણે તે ફરીથી છુપાવી દીધું, ને તેના હષઁને લીધે તેણે જઈ પોતાનું જે કાંઈ હતું તે બધું વેચી દઈને તે ખેતર ખરીદી લીધું.

"વળી, સ્વર્ગનું રાજ્ય ઉત્તમ મોતીની શોધનાર વેપારીના જેવું છે. જયારે તેને તે અતિમૂલ્યવાન મળી આવ્યું તે ગયો અને પોતાનું જે કાંઈ હતું તે વેચીને તેણે તે ખરીદી લીધું.(માથ્થી 13:44-46)

Os dois homens são diferentes. O primeiro não estava procurando nada — tropeça num tesouro enterrado, talvez trabalhando num campo que não era dele. O segundo é um comerciante que passou a vida procurando pérolas boas e, um dia, encontra a pérola. Um encontra sem buscar; o outro busca e encontra. Jesus está dizendo que se chega ao Reino pelos dois caminhos — o do que foi surpreendido e o do que procurou a vida inteira.

Mas a reação dos dois é a mesma: vendem tudo. E o detalhe que mais importa está na primeira história: ele vai vender tudo "transbordante de alegria". Não é sacrifício a contragosto. É a conta de quem percebeu que está trocando pouco por muito. Ninguém chora ao trocar moedas por um tesouro.

Isso aqui é importante, porque às vezes se fala de seguir Jesus como se fosse só perda — abrir mão, renunciar, carregar cruz. Jesus fala disso também, mas aqui ele mostra a outra face: quem entende o que o Reino é não sente que está perdendo. Sente que ganhou. Na mesma linha, Paulo dirá que considera tudo o que tinha "como perda" diante de conhecer a Cristo (Filipenses 3.8) — e não escreve isso com lamento.

Há uma pergunta justa: isso significa que a pessoa "compra" o Reino? Não. A parábola não é sobre o mecanismo da salvação, que a Bíblia descreve como dom (Efésios 2.8-9), mas sobre o valor — sobre o que o Reino faz com a lista de prioridades de quem o encontra. Quem acha o tesouro reorganiza a vida inteira em torno dele, não porque é obrigado, mas porque seria tolice não fazer isso.

Se o Reino chegou, por que o mal continua? O joio e a rede

Essa é a objeção óbvia, e Jesus a enfrenta de frente. Se Deus está reinando desde que Jesus veio, por que o mundo continua cheio de injustiça, e por que gente ruim prospera no meio da gente boa — às vezes dentro da própria igreja?

A primeira resposta é a parábola do joio, em Mateus 13. A história é curta. Um homem semeia boa semente no campo. De noite, enquanto todos dormem, um inimigo entra e semeia joio no meio do trigo. O joio — em grego zizania, uma erva que se parece com o trigo até a espiga se formar — só aparece quando as plantas crescem. Os servos ficam indignados e perguntam se devem arrancar. O dono diz não: arrancando o joio agora, vão arrancar trigo junto. "Deixem que cresçam juntos até a colheita." Na colheita, sim, o joio será amarrado e queimado, e o trigo guardado no celeiro.

O que a parábola está dizendo? Que a mistura é esperada. O Reino chegou, mas o inimigo também está semeando, e durante esta era os dois crescem lado a lado. E que a separação não é tarefa dos servos agora. Eles enxergam mal, confundem joio com trigo, e fariam estrago.

Jesus mesmo explica essa parábola, coisa rara, logo adiante, em Mateus 13, em casa, a pedido dos discípulos. Ele dá a chave de cada elemento: quem semeia é o Filho do Homem; o campo é o mundo; a boa semente são "os filhos do Reino"; o joio são os filhos do Maligno; o inimigo é o diabo; a colheita é o fim dos tempos; os ceifeiros são anjos. E termina com a promessa: "então os justos resplandecerão como o sol, no Reino de seu Pai".

Repare num detalhe que Jesus deixa claro: "o campo é o mundo". A parábola fala, antes de tudo, de como o Reino convive com o mal no mundo, não de como a igreja deve tratar quem peca dentro dela — para isso há outros textos, como Mateus 18.15-17. Uma leitura antiga, que vem de Agostinho e da sua discussão com os donatistas, aplicou a parábola também à igreja, para dizer que ela será sempre uma mistura até o fim. É uma aplicação legítima, mas secundária; o texto, em primeiro lugar, fala do mundo.

A terceira parábola repete a lição com outro cenário, em Mateus 13: uma rede de arrasto lançada ao mar apanha peixe de toda espécie. Só quando está cheia os pescadores a puxam para a praia e, sentados, separam os bons para os cestos e jogam fora os ruins. "Assim será no fim dos tempos." De novo: a rede recolhe tudo misturado, e a seleção fica para o fim e para os anjos.

Quatro pescadores na praia separam peixes de uma rede e os guardam em cestos.

Para quem lê, isso tem duas consequências práticas. A primeira é paciência: o fato de haver mal no mundo não prova que Deus não reina; prova que a colheita ainda não chegou. A segunda é humildade: não cabe a nós decidir quem é joio. Jesus não está proibindo discernimento — ele mesmo manda cuidado com falsos profetas —, mas está tirando das nossas mãos a sentença final. A sentença existe, e é séria ("fornalha acesa", "choro e ranger de dentes"), mas quem a executa é Deus, no tempo dele.

Quem faz parte do Reino: "deles é o Reino dos céus"

Agora a segunda metade da pergunta: quem está dentro? Jesus responde primeiro no Sermão do Monte, e a resposta surpreende tanto hoje quanto surpreendeu na Galileia.

"આત્મામાં જેઓ રાંક છે તેઓ આશીર્વાદિત છે,

કારણ કે સ્વર્ગનું રાજ્ય તેઓનું છે.(માથ્થી 5:3)

As bem-aventuranças vão do versículo 3 ao 12, em Mateus 5, e formam um retrato de quem o Reino pertence: os que choram, os mansos, os que têm fome de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores, os perseguidos. Mas repare na moldura. A primeira (versículo 3) e a oitava (versículo 10) terminam com a mesma frase: "deles é o Reino dos céus". Tudo o que está no meio fica entre essas duas pontas. É como se Jesus dissesse: o Reino é destas pessoas aqui.

E quem são os "pobres em espírito"? A palavra grega para pobre, ptōchós, não descreve quem tem pouco; descreve o mendigo, quem não tem nada e sabe disso. "Em espírito" leva a pobreza para dentro: é quem está diante de Deus de mãos vazias, sem méritos para apresentar, sem religiosidade para exibir. O Antigo Testamento já chamava Deus de alguém que habita "com o contrito e abatido de espírito" (Isaías 57.15). Jesus está dizendo que o Reino não é dos que se qualificam, mas dos que reconhecem que não se qualificam.

Vale notar também o tempo do verbo. Quase todas as bem-aventuranças estão no futuro: "serão consolados", "herdarão", "serão saciados", "verão a Deus". Mas as duas que falam do Reino estão no presente: "deles é". O Reino, para os pobres em espírito, não é só promessa. Já é deles.

Isso vira a lógica religiosa de cabeça para baixo. Na época, os candidatos óbvios ao Reino eram os escribas, os fariseus, os que conheciam a lei e a cumpriam com rigor. Jesus coloca na frente os que choram e os que mendigam a Deus. E essa inversão, como a gente vai ver, se repete em cada vez que ele fala de quem entra.

Como crianças: quem é o maior no Reino

Os discípulos tinham uma pergunta recorrente, e ela diz muito sobre como a gente pensa o Reino: quem é o maior? Eles perguntam direto em Mateus 18, e Jesus responde chamando uma criança e colocando-a no meio deles:

અને તેમણે કહ્યું, હું સાચે જ તમને કહું છું "જયાં સુધી તમે નહિ ફરો, અને બાળકોનાં જેવા નહિ બનો, તો તમે સ્વર્ગના રાજ્યમાં પ્રવેશી શકશે નહિ.(માથ્થી 18:3)

É preciso lembrar o lugar das crianças no mundo antigo para sentir o peso disso. Criança não tinha status, não tinha voz, não tinha nada a oferecer; era dependente por definição. Quando Jesus diz "se tornarem como crianças", ele não está falando de inocência — criança não é inocente — mas dessa dependência total e sem vergonha. A criança recebe, porque não tem como fazer de outro jeito. E em 18.4 ele completa: quem se humilha como esta criança é o maior no Reino. A pergunta dos discípulos era sobre grandeza; a resposta é sobre pequenez.

O tema volta um capítulo depois, quando pessoas trazem crianças para Jesus abençoar e os discípulos tentam impedir:

ઈસુએ કહ્યું, "નાના બાળકોને મારી પાસે આવવાં દો, તેઓને અટકાવશો નહિ. કેમકે સ્વર્ગનું રાજ્ય એ એવાઓનું જ છે."(માથ્થી 19:14)

"O Reino dos céus pertence aos que são como elas" — ou, nas traduções mais antigas, "dos tais é o Reino dos céus". Jesus não só aceita as crianças; ele as usa como modelo. E repreende os discípulos, que mais uma vez achavam que o Reino era coisa de gente importante.

Junta isso com "pobres em espírito" e o retrato fica nítido. Quem entra no Reino é quem vem de mãos vazias, sabendo que não tem o que dar e disposto a receber. O orgulho — espiritual ou de qualquer outro tipo — é o obstáculo que mais aparece nos lábios de Jesus. Não porque Deus implique com gente capaz, mas porque gente que se acha capaz não pede, e o Reino é recebido, não conquistado.

Ricos podem entrar? O camelo e a agulha

Logo depois das crianças vem o jovem rico. Ele pergunta o que fazer para ter a vida eterna, ouve de Jesus "venda tudo, dê aos pobres e siga-me" e vai embora triste, porque tinha muitos bens. Então Jesus se vira para os discípulos e diz a frase que ficou famosa: é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. A cena está em Mateus 19.

Os discípulos ficam espantados: "Então, quem pode ser salvo?" A pergunta deles mostra o que eles pensavam — que riqueza era sinal de bênção, logo o rico estaria na frente da fila. Jesus não suaviza a imagem do camelo. Mas dá a saída: "Para os homens isso é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis." A resposta não é "o rico dá um jeito"; é "Deus faz o que ninguém faz".

Vale ser preciso aqui, porque dá para errar em duas direções. A Bíblia não diz que ser rico desqualifica alguém do Reino — José de Arimateia era "homem rico" (Mateus 27.57) e discípulo; Zaqueu era chefe de cobradores de impostos e ouviu de Jesus que a salvação chegara à sua casa (Lucas 19.1-10). Mas ela diz, com clareza, que a riqueza compete. Ela dá à pessoa a sensação de que não precisa de nada — e o Reino é dos que sabem que precisam. O jovem rico não foi embora porque tinha dinheiro; foi embora porque o dinheiro era o que ele não conseguia soltar.

Tiago, o irmão de Jesus, lê a mesma realidade pelo outro lado, numa carta que repreende igrejas por darem o melhor lugar a quem chega bem vestido:

મારા પ્રિય ભાઈઓને બહેનો સાંભળો: વિશ્વાસમાં ધનવાન થવા સારું, તથા ઈશ્વરે પોતાના પર પ્રેમ રાખનારાઓને જે રાજય આપવાનું વચન આપ્યું છે તેનું વતન પામવાં સારું, ઈશ્વરે આ જગતના ગરીબોને પસંદ નથી કયાઁ?(યાકોબ 2:5)

"Herdeiros do Reino" — a mesma linguagem de Daniel 7.18, "possuirão". E repare que Tiago não idealiza a pobreza: os pobres são ricos "na fé", e o Reino é prometido "aos que o amam". O que Tiago denuncia é que a igreja estava usando os critérios do mundo para medir importância, quando Deus tinha escolhido justamente quem o mundo descartava. É a bem-aventurança dos pobres em espírito virando prática de comunidade.

Para quem lê isso hoje, a pergunta não é "quanto eu tenho?", mas "o que eu não conseguiria soltar?". Esse é o camelo.

Gente que ninguém esperava à mesa: Mateus 8.11 e 11.11-12

Duas falas de Jesus, separadas por três capítulos, mostram que a fronteira do Reino não passa onde as pessoas da época achavam que passava.

A primeira é a do centurião de Cafarnaum. Um oficial romano, estrangeiro e pagão, pede a cura do servo e diz a Jesus que nem precisa ir até lá — basta uma palavra. Jesus se admira e diz que não encontrou fé assim nem em Israel. E então:

હું તમને કહું છું કે ઘણાં લોકો પૂવઁથી અને પશ્વિમથી આવશે અને સ્વર્ગના રાજ્યમાં અબ્રાહમ, ઇસહાક અને યાકોબની સાથે પવઁમા બેસશે,(માથ્થી 8:11)

"Muitos virão do oriente e do ocidente" é a linguagem dos profetas para os povos de fora de Israel. Jesus os coloca à mesa com Abraão, Isaque e Jacó — os patriarcas da nação. E no versículo seguinte, 8.12, vem o choque: "os filhos do Reino", quer dizer, os que se achavam herdeiros naturais, "serão lançados nas trevas". O Reino tem gente de fora entrando e gente de dentro ficando de fora, e o critério é o do centurião: fé.

A segunda fala é sobre João Batista. Jesus acaba de chamá-lo de maior do que todos os profetas, e então diz algo estranho:

હું તમને સાચે જ કહું છું કે સ્ત્રીથી જેઓ જન્મ્યાં છે, તેઓમાં યોહાન બાપ્તિસ્ત કરતા કોઈ મોટો ઉત્પન્ન થયો નથી; તોપણ સ્વર્ગના રાજ્યમાં જે નાનો છે તે તેના કરતાં પણ મોટો છે. યોહાને બાપ્તિસ્તનાં દિવસોથી લઈને અત્યાર સુધી સ્વર્ગનું રાજ્ય હિંસાને સોંપવામાં આવેલું હતું, અને હિંસક લોકો અધિકાર ચલાવે છે.(માથ્થી 11:11,12)

Como pode "o menor no Reino dos céus" ser maior do que João, se João é o maior que já nasceu? A resposta está na diferença entre promessa e cumprimento. João está na porta: ele anunciou o Reino, apontou para Jesus, mas pertence ainda à era da expectativa. Quem está dentro do Reino — mesmo o mais insignificante dos discípulos — vive algo que João só viu de longe. Não é uma comparação de caráter; é uma comparação de época. Vale pensar nisso quando a gente se sente pequeno na fé: o menor no Reino está num lugar que os profetas desejaram ver.

O versículo 12 é um dos mais difíceis de Mateus, e é honesto dizer que há duas leituras. O verbo grego biazetai pode ser lido como passivo — "o Reino sofre violência", é atacado, e "violentos" o saqueiam — e aí Jesus estaria falando de Herodes, que prendeu João, e dos que resistiam ao Reino. Ou pode ser lido como voz média — "o Reino avança com força" — e os que "o tomam" seriam os que entram nele com decisão, como no paralelo de Lucas 16.16, onde "todos se esforçam por entrar". As traduções brasileiras se dividem; a ACF e a NAA puxam para a primeira leitura, outras para a segunda. Os dois sentidos são verdadeiros em algum lugar da Bíblia; o que não dá é usar o versículo como se ensinasse uma coisa só e com certeza.

"Senhor, Senhor" não basta: fazer a vontade do Pai

Se o Reino é dos pobres em espírito, das crianças, dos que vêm de mãos vazias — isso quer dizer que basta dizer que se crê? Jesus responde a essa pergunta no fim do Sermão do Monte, e a resposta é dura:

"દરેક જેઓ મને ‘પ્રભુ, પ્રભુ’ કહે છે તેઓ સવઁ સ્વર્ગના રાજ્યમાં પ્રવેશી શકશે નહિ, પણ જેઓ મારા સ્વર્ગમાનાં પિતાની ઈચ્છા પ્રમાણે કરે છે તેઓ જ.(માથ્થી 7:21)

Olha o contexto, nos versículos 22 e 23. As pessoas que dizem "Senhor, Senhor" não são ateias nem indiferentes; elas profetizaram, expulsaram demônios, fizeram milagres em nome de Jesus. Têm currículo religioso. E ouvem: "Nunca os conheci." O critério não é o volume da confissão nem o tamanho da obra; é "fazer a vontade de meu Pai". Reino é governo, e governo pede obediência. Quem chama Jesus de Senhor e faz o que quer está usando o título sem viver o que ele significa.

Isso conecta com algo que Jesus disse no começo do mesmo sermão, logo depois das bem-aventuranças:

એ માટે જો કોઈ માણસ સૌથી નાનામાં નાની આજ્ઞાને બાજુ પર મુકશે અને બીજાઓને એવું કરતા શીખવશે, તો તે સ્વર્ગીય રાજ્યમાં સૌથી નાનો કહેવાશે. પરંતુ, જેઓ ઈશ્વરના નિયમોને પાળશે ને શિખવશે તેઓ સ્વર્ગના રાજ્યમાં મહાન કહેવાશે. હું તમને કહું છું: કે તમારું ન્યાયીપણું ફરોશીઓ અને નિયમશાસ્ત્રના પંડિતો કરતાં ચઢીયાતું નહિ હોય તો તમે સ્વર્ગીય રાજ્યમાં પ્રવેશી શકવાનાં જ નથી.(માથ્થી 5:19,20)

Duas coisas aqui. Em 5.19, há "menor" e "grande" no Reino — Jesus admite graus de fidelidade entre os que estão dentro, ligados a guardar e ensinar os mandamentos. Em 5.20, a exigência sobe: a justiça precisa "exceder" a dos escribas e fariseus, que eram os campeões de observância da época. Como exceder quem cumpria tudo? O resto do capítulo responde: não em quantidade, mas em profundidade. Não basta não matar, é preciso não odiar; não basta não adulterar, é preciso não cobiçar (Mateus 5.21-30). A justiça do Reino é a do coração, não a da aparência.

Paulo diz a mesma coisa com outras palavras aos cristãos de Éfeso, num trecho sobre a vida que combina com quem foi chamado:

કેમકે તમે એ વાત ચોક્કસ જાણો છો કે: કોઈ પણ અનૈતિક, અશુધ્ધ કે દ્રવ્યલોભી વ્યક્તિ તો મૂર્તિપૂજક છે, તેને મસીહના અને ઇશ્વરના રાજ્યમાં કોઈ વારસો નથી.(એફેસી 5:5)

"Herança no Reino de Cristo e de Deus" — e quem não tem herança, segundo Paulo, é o imoral, o impuro, o ganancioso, "que é idólatra". Repare que a ganância aparece ao lado do adultério. Para Paulo, o avarento não tem um problema financeiro; tem um problema de culto — está adorando outra coisa. E quem adora outra coisa não está debaixo do governo de Deus, por mais que diga "Senhor".

Agora, é preciso dizer isso com cuidado, porque dá para entender errado. A teologia evangélica histórica — e esta página fala a partir dela — não ensina que a obediência compra a entrada. A entrada é dom: "pela graça vocês são salvos, por meio da fé" (Efésios 2.8-9). O que esses textos dizem é que a fé verdadeira muda o modo de viver, e que uma "fé" que não muda nada não é a fé de que a Bíblia fala. Tiago diz que ela está morta (Tiago 2.17). Paulo resume o que é viver no Reino: "não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo" (Romanos 14.17). Obedecer não é o preço do ingresso; é o jeito de quem já entrou.

Há tradições cristãs que arrumam a relação entre fé e obras de modos um pouco diferentes — a católica fala de fé e obras cooperando na justificação; a reformada insiste em justificação só pela fé com obras como fruto necessário; a wesleyana enfatiza a santificação como caminho. Todas, porém, leem Mateus 7.21 do mesmo jeito no essencial: quem está no Reino faz a vontade do Pai.

Um Reino que não cai: o que fica quando tudo balança

Toda esta página falou de um Reino que começou pequeno, cresce em silêncio e convive com o joio. Falta dizer para onde ele vai — e aqui o Novo Testamento fala com uma segurança que o Antigo já tinha anunciado em Daniel.

Comece pelo jeito como Jesus fala de dar o Reino. Em Lucas 12, ele acabou de dizer aos discípulos para não andarem ansiosos com comida e roupa, e para buscarem o Reino primeiro. Então diz:

"ઓ નાની ટોળી, બીશ નહિ, કારણ કે તમને રાજ્ય આપવાની તમારા પિતાની ખુશી છે.(લૂક 12:32)

"Pequeno rebanho" — ele não lisonjeia; eles eram poucos e fracos. Mas "ao Pai agradou dar-lhes o Reino". O verbo é dar. Combina com Daniel 7.18, "receberão", e com as bem-aventuranças, "deles é". Em nenhum lugar o Reino é conquistado por quem está nele; é sempre recebido de quem é dono. É por isso que o medo não combina com ele.

A carta aos Hebreus leva a mesma ideia ao fim. Depois de dizer que Deus vai "abalar" não só a terra, mas o céu — citando o profeta Ageu —, o autor conclui:

માટે, આપણને તો એવું રાજ્ય મળ્યું છે કે જે હલાવી શકાતું નથી, તેથી આપણે આભાર માનીએ, જેથી ઈશ્વર પ્રસન્ન થાય તેવી રીતે ભય તથા આદર સાથે તેમની આરાધના કરીએ. કેમકે "આપણા ઈશ્વર ભસ્મ કરી નાંખનાર અગ્નિ છે."(હિબ્રૂ 12:28,29)

"Um Reino inabalável" é a resposta à pergunta de todo mundo que vê instituições ruírem, governos caírem e certezas evaporarem. Tudo o que pode ser abalado será; o que fica é o Reino. E a reação que Hebreus pede não é euforia, é gratidão e reverência — "porque o nosso Deus é fogo consumidor". O mesmo Deus que dá o Reino é santo. Receber de graça não é tratar com leveza.

Pedro fala desse Reino com uma palavra que ainda não tinha aparecido: "eterno". E liga isso à vida de quem espera por ele:

તેથી મારા ભાઈઓ અને બહેનો, તમને મળેલાં તેળા તથા પસંદગી નક્કી કરવા સારું પુરો પ્રયાસ કરો. કેમકે જો તમે આ બાબતો કરશો તો તમે કયારેય ઠોકર ખાશો નહિ, અને આપણા પ્રભુ તથા તારનાર ઈસુ મસીહના સાર્વકાલિક રાજ્યમાં તમારું ભવ્ય સ્વાગત થશે.(2 પિતર 1:10,11)

Os versículos anteriores, 1.5 a 7, listam o que Pedro tem em mente: acrescentar à fé virtude, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, amor. "Confirmar a vocação e eleição" não é garantir a Deus que fomos escolhidos — é viver de modo que a escolha dele se mostre em nós. E a promessa é "entrada ampla", "rica", no Reino eterno. Não uma porta estreita em que a pessoa se espreme com culpa, mas uma recepção generosa.

Por fim, Paulo, num dos últimos textos que escreveu. Está preso em Roma, abandonado por quase todos, esperando a execução — "o tempo da minha partida está próximo" (2 Timóteo 4.6). E escreve:

પ્રભુ મને સર્વ અનિષ્ટોથી બચાવીને તેમના સ્વર્ગીય રાજ્યમાં લાવશે. તેમને સદાસર્વકાળ મહિમા હો. આમીન.(2 તિમોથી 4:18)

Ele não espera ser livrado da morte; espera ser preservado "para o seu Reino celestial". É aqui que o "céu" entra, finalmente, no sentido em que as pessoas costumam pensar: o Reino que na terra ainda convive com o joio tem uma consumação além da morte, e quem morre em Cristo não sai do Reino — chega à parte dele que ainda não via. Paulo tinha pregado "arrependam-se, porque está próximo o Reino" por trinta anos. Na última carta, ele está prestes a ver o que anunciava.

O versículo que resume tudo

Mateus 4.17 continua sendo a melhor frase para guardar: "Arrependam-se, porque está próximo o Reino dos Céus." O Reino é Deus reinando, e ele chegou perto em Jesus — perto o bastante para que a única resposta sensata seja virar o rosto para ele. Quem faz isso de mãos vazias, como mendigo ou como criança, descobre que o Reino já é seu; e quem o encontra reorganiza a vida em volta dele com a alegria de quem achou um tesouro.

Se quiser ler a passagem que melhor junta tudo isso, leia Mateus 13 inteiro, de uma vez. É o capítulo das parábolas do Reino — o semeador, o joio, a mostarda, o fermento, o tesouro, a pérola, a rede —, e nele Jesus explica com histórias o que esta página tentou explicar em prosa.

O Reino dos céus é o mesmo que o céu depois da morte?

Não exatamente. "Reino dos céus" é o reinado de Deus — "céus" é um jeito judaico respeitoso de dizer "Deus", não o lugar. Esse reinado chegou à terra com Jesus, e o Pai-nosso pede que ele venha "assim na terra como no céu" (Mateus 6.10). O céu depois da morte faz parte do Reino, na sua consumação, mas o Reino é maior do que isso: já começou aqui.

Qual a diferença entre Reino dos céus e Reino de Deus?

Nenhuma, na prática. Mateus usa "Reino dos céus" mais de trinta vezes e "Reino de Deus" umas quatro, inclusive em frases seguidas sobre o mesmo assunto (Mateus 19.23-24). Marcos, Lucas e Paulo dizem sempre "Reino de Deus". Uma corrente, o dispensacionalismo clássico, distingue as duas expressões, mas a maioria dos intérpretes cristãos as lê como sinônimos.

Como entrar no Reino dos céus?

Jesus resume em uma palavra: arrependimento (Mateus 4.17) — voltar-se para Deus de mãos vazias, "como criança" (Mateus 18.3), reconhecendo que não há mérito a apresentar. A João ele diz que é preciso "nascer de novo" (João 3.3-5). A entrada é dom de Deus, pela fé em Cristo (Efésios 2.8-9), e se mostra numa vida que faz a vontade do Pai (Mateus 7.21).

A igreja é o Reino dos céus?

Não são a mesma coisa. O Reino é o governo de Deus; a igreja é o povo que vive debaixo desse governo e o anuncia. Jesus diz que "o campo é o mundo" (Mateus 13.38), não a igreja, quando explica o joio. A igreja é o sinal mais visível do Reino na terra, mas o Reino é maior do que ela e será consumado quando Cristo voltar.

Onde a expressão "Reino dos céus" aparece na Bíblia?

Só no Evangelho de Mateus, mais de trinta vezes — de Mateus 3.2, na boca de João Batista, até os capítulos finais. Nos outros livros a expressão equivalente é "Reino de Deus", "Reino de Cristo" (Efésios 5.5) ou "Reino celestial" (2 Timóteo 4.18). No Antigo Testamento, a ideia aparece como "o Senhor reina" (Salmos 93.1) e no reino eterno de Daniel 2.44 e 7.18.

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